Debatendo ideias

As ideias espíritas chegaram até nós graças ao trabalho conjunto entre duas equipes de Espíritos de alto grau de evolução (moral e intelectual): uma material e outra no plano espiritual.

Em sua construção, o debate de ideias, respeitoso e de alto nível, foi essencial, como poderemos observar neste artigo.

O trabalho que originou a Codificação

No plano material, como sabemos, a equipe contou com a direção segura do Codificador Allan Kardec que não apenas comandava as reuniões mediúnicas, como elaborava perguntas, avaliava de forma criteriosa (sempre com base no bom senso), comparava respostas provenientes de médiuns/espíritos variados, entre outras tarefas essenciais para que a mensagem espírita surgisse em sua plenitude.

Dentro desse processo sensato, o debate de ideias tinha um papel preponderante, dando-se de diversas formas. Começando pela discussão entre o próprio Kardec e os Espíritos comunicantes, haja vista que o professor nunca aceitou qualquer explicação sem sentir-se totalmente convencido de que era a mais plausível possível.

E para chegar a esse nível de segurança fazia perguntas, ouvia as respostas, rebatia com mais perguntas ou colocações, enfim, travava um debate saudável e necessário para se estabelecer um corpo doutrinário coerente e preciso.

O debate se estendia, também, aos demais companheiros da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, instituição criada exatamente com a finalidade de servir aos estudos da doutrina que ora nascia.

E, convém frisar, o professor abriu um canal de diálogo para que todos os interessados em se manifestar em relação ao Espiritismo pudessem colocar suas ideias, dúvidas ou observações. Esse veículo de comunicação era a Revista Espírita, utilizada para divulgar ao público em geral as descobertas obtidas na Sociedade Parisiense e em outros grupos espíritas, uma vez que Kardec recebia correspondência de variados locais do mundo e, muitas delas, continha elementos importantes para o entendimento doutrinário.

Dessa forma, podemos afirmar que o diálogo e o debate de ideias sempre foram priorizados por Allan Kardec. E ele os conduzia de maneira ímpar: com respeito, liberdade e, quando comprovadamente corretos, absorvendo a ideia trazida por outros espíritas.

Discussões são essenciais para construção do conhecimento

A troca de informações e experiência enriquece sobremaneira nosso aprendizado. Contudo, o meio espírita nem sempre está aberto para ouvir. Ouvir de verdade: sem limitações ao pensamento do outro, sem excluir pessoas desse círculo de trocas apenas pelo fato de, eventualmente, terem um pensamento diferenciado da maioria e, principalmente, escutar de forma respeitosa, entendendo que devemos divergir das ideias, mas jamais deixar de amar a pessoa.

Ao efetuar de verdade o exercício de escutar o outro, provavelmente teremos surpresas interessantes. Talvez cheguemos à conclusão de que nossa forma de pensar está correta e deve ser mantida aquela linha de raciocínio. Em outras ocasiões, poderemos descobrir a necessidade de renovar nosso pensamento e nossa forma de atuação – em um clara e positiva constatação de que mudanças são naturais e devem ser encaradas como tal.

Outras oportunidades poderão nos mostrar que ainda não temos uma opinião final sobre determinado assunto (o que também é positivo, desde que mantenhamos a mente aberta para reflexões importantes e necessárias para nossa evolução).

Quando olho para a espírita que era no início do meu contato com a Doutrina Espírita e vejo a espírita que me tornei percebo uma caminhada longa e feliz. Isso porque permiti que o conteúdo espírita fosse “penetrando” em meu ser, me transformando, assim como minha maneira de encarar a vida e meu entendimento doutrinário.

E isso só foi possível porque, entre outras coisas, me permiti ouvir e refletir sobre muitas colocações doutrinárias que, em um primeiro momento, eu entendia de forma diversa.

Isso me fez crescer em todos os sentidos. Por isso vibro e trabalho para que possamos manter em nosso meio a permanente troca de ideias, sempre de forma respeitosa e fraterna – como nos ensina a Doutrina Espírita, aliás.

Jornalista e escritora, é integrante do CE Gabriel Ferreira, participa da USE Distrital Vila Maria desde 2000. É criadora e coordenadora do projeto: “Comece pelo Comecinho” e autora do livro: “Comece pelo Comecinho – Educação Espírita Infantojuvenil: uma proposta de trabalho”, pela editora O Clarim.

Natural do Rio de Janeiro (RJ) e radicado há muitos anos em Florianópolis (SC), Marcelo Henrique se tornou espírita em 1981, vindo do catolicismo. É Secretário Executivo da Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo (ABRADE) e presidente da Associação dos Divulgadores do Espiritismo de Santa Catarina (ADE-SC), assim como do Centro Cultural Espírita Herculano Pires, em São José (SC). Também é delegado da Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA), associado da Associação Brasileira de Amigos e Delegados da CEPA (CEPA-Brasil), do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CP-Doc) e da Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas da Paraíba (ASSEPE). Atua, ainda, como representante da ABRADE, no Fórum das Entidades Especializadas de Âmbito Nacional, junto à Federação Espírita Brasileira. É Editor-Chefe da Revista Espírita HARMONIA, um periódico eletrônico e, como escritor e articulista, tem artigos e pesquisas em diversos sites, assim como é autor de “Túnel de Relacionamentos” (Ed. EME) e “Alteridade: a diferença que soma” (Ed. INEDE).

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