E Tu te Foste…

Era próximo do Meio Dia

Quando tu, Rivail, atendias um caixeiro de livraria, para o envio de novos exemplares de suas obras e, abruptamente, caíste ao solo,
ao romper-se, fulminante, um aneurisma, ali se encerrava a tua trajetória de quase doze anos (18 de abril de 1857 – 31 de março de 1869) como Codificador do Espiritismo, sob o nome de Allan Kardec.

Se, entretanto, remontarmos ao momento em que tu te iniciaste nos fenômenos mediúnicos, anotando, perquirindo, escrevendo – maio de 1855 – ou, mesmo, no instante em que tu começaste a te interessar pela observação dos fenômenos das mesas girantes e falantes (1854) até o teu desencarne, foram quase 15 anos dedicados integralmente ao Espiritismo.

Deixaste de ser Rivail para te tornares Kardec

Se formos nos basear, então, neste conjunto de anos físicos, quinze anos são uma fração infinitésima da luz de um relâmpago na eternidade.

Mas eles foram decisivos para que a Humanidade ingressasse, a partir de ti, eu uma Nova Era, a Era do Espírito.

Os mesmos traços de pedagogo, cientista e filósofo, desde tua formação em Yverdun, com o célebre Pestalozzi, foram marcantes nos anos em que estiveste a serviço da missão de Codificar o Espiritismo, apresentando uma proposta de espiritualização da Humanidade, a partir da melhor compreensão entre as realidades física (material) e espiritual.

Como emérito educador

Homem de ciência e de filosofia, com destreza e seriedade desvendaste o mistério que havia em relação aos insólitos fenômenos ditos sobrenaturais, que se produziam por toda a Europa, desde as residências mais simples até os grandes salões de Paris.

Movido pela curiosidade, pelo ceticismo e pela veia científica que te eram inatos tu, Kardec, não te contentaste apenas com aquilo que ouvias dizer.

Foste a fundo nas tuas pesquisas acerca dos fenômenos que ocorriam na época, bem como nas comunicações que chegavam até ti, de múltiplas localidades.

Eras, então, incansável e infatigável nas buscas, e nas comprovações ou descartes dos materiais que acessavas.

Pouco a pouco, minuciosamente estruturaste, contando com os seus mais próximos e confiáveis, cada página que compõe os livros que foram fazendo parte da Codificação.

Neste sentido, teu modo de agir foi e continua sendo admirado e respeitado, como um homem à frente do seu tempo e, de algum modo, à frente dos tempos em que hoje vivemos!

Completamos, assim, neste momento, 150 anos do teu desencarne.

Quais as principais características que te fizeram ser merecedor do título de MESTRE?

Curiosidade, criticidade, consciência, clareza, competência, comprometimento, coerência, cuidado e, acima de tudo, a coragem de um ser humano muito correto em seus afazeres e propósitos e caridoso para com todos.

Teu maior legado é irrepreensível, com sede na doutrina por ti revelada, porque ela resgata a proposta do “conhece-te a ti mesmo”, de Sócrates, para, além de abalar as estruturas do dogmatismo religioso e do ceticismo da ciência, desqualificar o materialismo, em uma missão de espiritualização das consciências, cumprida com extrema dedicação e amor.

Em cada obra fundamental do Espiritismo e, também, em teu Laboratório Mediúnico, a Revue Spirite

Tu nos mostraste a tua maturidade intelectual e moral, as quais se acentuavam gradualmente no aprimoramento de ideias, conceitos e teses literárias científico-filosóficas, todas de conteúdo ético irreparável, que publicaste, mas, também e propriamente, na prática dos teus ensinos, seja nos colóquios com as pessoas que encontraste pelos caminhos, seja às obras de educação e assistência social a que te dedicaste, empregando recursos financeiros e, mais do que isso, teu tempo, teu entusiasmo e teus sentimentos.

Enfrentaste os combates de religiosos de outros sistemas que, inclusive, lançaram à fogueira trezentos exemplares de seus livros, em praça pública (1861, em Barcelona), já que não era mais possível, à intolerância religiosa vinculada aos poderes estatais, queimar pessoas.

Depois, também conviveste com os cismas dentro do próprio movimento espírita francês, quando alguns desejavam outros rumos e a concordância com teses esdrúxulas, nem todas elas novas, mas remontando a movimentos do passado, totalmente incompatíveis com princípios e fundamentos do Espiritismo.

Não te abalaste.

Seguiste firme e compenetrado até os últimos dias.

Não impuseste, jamais, a “verdade espírita”, deixando a cada um os efeitos do tempo e da maturação das ideias, circunstâncias essas que sempre figuraram em tuas obras, tuas cartas e teus discursos. O Espiritismo, para ti, jamais foi “questão (ou objeto) de crença”, mas de observação e raciocínio lógico.

O fato é que percebeste que os espíritas franceses já se encontravam divididos, e a casa originária, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas estava sendo, aos poucos, controlada por aqueles que não desejavam ser fiéis à Codificação, mas, por vaidade e intenções pessoais, os quais passaram a introduzir elementos de obras paralelas e contraditórias. E isto foi consumindo, pouco a pouco, tuas forças, até o momento derradeiro.

Permaneces após tua morte, vinculado ao Pensamento Espiritista

Como se dá com todos os que se dedicam e se associam a causas, durante o trajeto da(s) encarnação(ões). E, graças às pesquisas e às informações que têm sido veiculadas nos últimos anos, após o teu desenlace, ainda preocupado e ciente da importância da Doutrina, trouxeste, por meio de Berthe Fropo, uma mensagem em tom grave mostrando àquele grupo – e a nós que te seguimos com entusiasmo e dedicação, e que analisamos aqueles momentos – a necessidade de inaugurar uma nova Sociedade Espírita. E assim foi feito…

Tua serenidade e despertamento se confirmam

Também quando, após haverdes transposto a fictícia fronteira do além-túmulo, continuaste progredindo moral e intelectualmente, testemunhando com notável elegância de estilo e lógica científica nas cinco comunicações que proferiste entre junho e novembro de 1869, àqueles que permaneciam fiéis aos teus propósitos, como um nítido incentivo para vencer as iniquidades, as traições e as deturpações movidas pelas paixões inferiores de alguns homens.

Tanto tempo depois, e ainda nos vemos envoltos nos mesmos cismas. Isto porque o desenvolvimento do Espiritismo em solo brasileiro também se pautou pela promoção e veiculação daquelas ideias que, em seu nascedouro, haviam sido por ti fortemente repelidas, porquanto fossem obra da visão estreita e pessoal de seus subscritores, não possuindo, assim, o caráter de generalidade e de permanência, escoras sob as quais se insculpiu o pensamento de matiz espiritista, com a tua marca.

Vale dizer, Kardec, que a força que colocaste nas evocações e a diretriz da afinidade de pensamentos e propósitos entre os membros de um agrupamento que se diga espírita, são as referências para o resgate do teu trabalho, do teu método e das próprias orientações emanadas pelos Espíritos.

Eles mesmos te inspiraram para que dissestes ao movimento espírita da época como ao dos dias presentes: o Espiritismo precisa progredir, a partir de novos colóquios com as Inteligências Superiores, ampliando-se questionamentos e horizontes, para que ele, o Espiritismo possa continuar caminhando paripasso com as Ciências humanas.

Deste modo, ao comemorarmos esta data, a do teu desencarne, não devemos nos deixar abater e nem cruzar os braços em face de erros e incompreensões, derivados da visão estreita acerca das questões espíritas, ou, até, diante de ataques de interesses pessoais ou de grupos. O zelo, a postura e a nobreza de intenções deve sempre estar à frente, como destacado estandarte, para que o estudo e o desenvolvimento desta Filosofia prossigam com o seu intento de permitir à Humanidade o conhecimento da realidade metafísica e das relações entre os mundos físico e espiritual.

Como Flammarion, teu dileto amigo, junto à tua tumba, afirmou que tu eras

“o bom senso encarnado, razão reta e judiciosa”,

Discurso pronunciado junto ao túmulo de Allan Kardec Por Camille Flammarion

Nós também assim nos referimos a você, Rivail-Kardec, com enorme gratidão e reconhecimento pelo valoroso trabalho a que te dedicaste. Homenageamos-te, por haverdes inscrito em letras indeléveis a Ciência de mil infinitos atributos, ciência não criada por tua imaginação e sim, pelo espírito observador, pelo caráter investigativo de eternas e imutáveis leis, dos processos e dos mecanismos regentes do Universo e da Vida, calcados nas manifestações das personalidades mais adiantadas que nós, com o olhar espiritual além-matéria, para nos descortinar a realidade espiritual verdadeira.

Tu, Rivail

Foste escolhido para aquela missão, em função do prévio conhecimento que já detinhas das Leis Espirituais, em virtude de tuas andanças de “Alma Viajora” na eterna rota espiritual por Universos sem fim, muito provavelmente porque tu já eras alma formada, enquanto nós, “cá embaixo” ainda não existíamos e, seguramente, ainda não “constávamos do projeto” de criação de Deus. Depois, viemos e cá estamos, para admirar tua obra e respeitá-la, revivendo-a e praticando-a, com todo o nosso empenho!

Esta obra nos permite descortinar as Realidades Espirituais calcadas em tais Leis, a que tudo e todos somos submetidos e, dentre elas, a do Progresso, que desponta em relevância, lei do desenvolvimento incessante e contínuo do Espírito na linha do Conhecimento e da Sabedoria, da qual tu és um dos modelos e a representação desta verdade.

Ah, Allan Kardec!

O tributo que te prestamos, hoje, quando relembramos tua última despedida material, se dirige ao movimento espírita brasileiro, para que o mesmo se liberte de fantasias e do mediunismo exacerbado, do culto tanto a personalidades encarnadas (médiuns, palestrantes ou dirigentes) como desencarnadas (tidas como Espíritos evoluídos) e da aceitação tácita de conteúdos que diferem da base que tu edificaste e dos princípios e do método que nos orientasses serem seguidos. É preciso retomar tuas diretrizes e avançar!

Olhando para ti e para o teu trabalho e voltando nossos olhares para nós mesmos, que estamos tão distantes espiritualmente de ti, partimos da observação do fato, tão simples quanto grandioso, de que evoluiremos sempre, estejamos encarnados ou desencarnados.

E isto nos inspira…

Porque a reencarnação não é mero instrumento causal do progresso da Alma – ou para os que o quiserem, do Espírito. Compartilhamos contigo, Mestre, a certeza de que o Espírito não evolui porque reencarna; pelo contrário, ele reencarna porque evolui. É a lei do Progresso que impõe a necessidade da reencarnação, e não o contrário. E como cá estamos, reencarnados, em ambientes espíritas, movidos pelas verdades espirituais-espíritas, sentimo-nos comprometidos para contribuir, também, com o progresso da Doutrina dos Espíritos.

Mas, neste instante em que te homenageamos, em derradeiro, queremos lembrar o homem que foste e o Espírito que és.

E, neste sentido, te vemos como um homem que chorou e riu, pois tiveste alegrias e tristezas, dúvidas e certezas.

Não somos daqueles que pensam que foste um mito; sabemos que foste um homem como nós, mas com uma responsabilidade enorme: a tua (ou a nossa) doutrina é o caminho para uma luta maior dos homens, pelo conhecimento de todos acerca da realidade da vida depois da morte. A melhor homenagem, então, que podemos te prestar é fazer da tua mensagem original e um efetivo auxiliar para o Progresso dos homens (Espíritos encarnados) e das Sociedades.

A nós nos cabe aproveitarmos esta data para refletirmos, lembrando, cada qual, acerca de nossa “iniciação” no Espiritismo para o comprometimento pessoal para darmos a nossa contribuição – ou, seria, talvez, melhor dizer, retribuição – ao tanto que fizestes pela Espiritualidade.

Somos-te gratos pela obra insuperável que nos legaste e por teres te dedicado com empenho na elaboração do Espiritismo. Obrigado, Mestre, obrigado!

Texto Coletivo feito por Membros do Grupo Espiritmo Com Kardec

Participaram da elaboração deste texto:

Beto Souza, Carlos Seth Bastos, Denis Bertelli, Edson Figueiredo de Abreu, Edson Miklos, Júlia Schultz, Kátia Pelli, Luciana Dornbusch Lopes, Marcelo Henrique, Marcus Braga, Sidnei Batista e Tiago Paulino, todos membros da administração do Grupo “Espiritismo COM Kardec”.

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