Espiritismo e Pobreza

A revista Veja, de 8 de maio de 2005, em sua reportagem “Os vivos e as outras vidas”, trás duas afirmações sobre a expansão da Doutrina Espírita no Brasil que merecem nossa reflexão.

A primeira é de José Luiz dos Santos, chefe do Departamento de Antropologia da Universidade Estadual de Campinas. Para ele, “para divulgar a doutrina, a elite tratou de atrair pobres como clientes. Já no fim do século XIX eles procuravam os Centros Espíritas para resolver seus problemas de saúde”.

a segunda, de autoria de Charles Kempf, coordenador do Centro de Estudos Espíritas Léon Denis, da cidade francesa de Thann, afirma que “a prática da caridade e do assistencialismo chancelou o Espiritismo no Brasil. Na França isso não ocorreu, pois o Estado francês funciona com razoável perfeição, não deixando espaço para os espíritas utilizarem esse recurso para angariar um rebanho maior”.

Porque o Espiritismo não prosperou na França

Esclareçamos que a afirmação do Sr.José Luiz dos Santos carece de fundamento pois a Doutrina Espírita não faz proselitismo. Atende aos que batem à sua porta, sempre informando que a assistência espiritual não dispensa o tratamento médico.

Com relação a Charles Kempf, vale lembrar que o principal motivo para o Espiritismo não prosperou na França foi a falta de continuidade dos trabalhos de Allan Kardec. O Sr. Pierre G. Leymarie, que presidiu a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas após a desencarnação do Codificador, abriu espaço para várias correntes espiritualistas – muitas delas envoltas em acentuado misticismo -, culminando com um processo em que se viu envolvido no ano de 1875.  Devido à publicação de algumas fotos forjadas por um médium chamado Sr.Buquet, sem o seu conhecimento, Leymarie amargou um ano de prisão e ainda teve que pagar uma multa de 500 francos.

Os jornais da época, em geral adversários dos fatos espíritas, não deixaram de aproveitar a oportunidade de ridicularizar a Doutrina e seus seguidores. Tanto que, com esse triste episódio, na França, o vocábulo espírita passou a ser sinônimo de “escroque” (trapaceiro, vigarista, caloteiro) .

Sobre o episódio, Gabriel Dellane, em sua obra de 1883, “O Espiritismo perante a Ciência”, conclui: “Se tivemos que experimentar uma condenação contra nós, foi porque nos desviamos da rota traçada por Allan Kardec, que era contrário a retribuição do médium e tinha por isso boas razões”.

Devemos ofertar o que somos, não o que temos

Devemos refletir sobre a forma como temos conduzido a Doutrina Espírita em nosso país e porque pessoas tão diferentes imaginam ser necessário haver pobreza para que a Doutrina Espírita se propague.

Temos hoje em muitas Casas Espíritas um assistencialismo material que, procurando suprir as deficiências sociais de nosso país, priorizam um programa de redução da fome do corpo, esquecendo-se que a finalidade essencial do Espiritismo é abastecer as necessidades do Espírito.

Não que a assistência material não seja importante, mas deve-se estar atento à forma de fazê-la. Muitas Casas Espíritas fazem esse trabalho em determinados dias do mês, porém os chamados “assistidos”, muitas vezes aguardam em filas que começam a ser formadas às primeiras horas da manhã, do lado de fora da instituição.

Algo que contraria a resposta à pergunta 888 de “O Livro dos Espíritos”, cuja lição não deveríamos esquecer. “Condenando-se a pedir esmola, o homem se degrada física e moralmente: embrutece-se. Uma sociedade que se baseie na lei de Deus e na justiça deve prover à vida do fraco sem que haja para ele humilhação”.

Ainda confundimos a palavra caridade com necessidades materiais. Quando Kardec ensina que “fora da caridade não há salvação” , está se referindo à caridade como entendida e exemplificada por Jesus, como deixa claro a primeira obra do Espiritismo (já citada), na resposta à questão 886: “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas”.

Cumprir esses ensinamentos ainda é difícil para nós, pois nos obriga a uma mudança de pensamento e atitudes. Optamos pelo mais fácil, a caridade material, dando não do que somos, mas do que temos.

Procuro com este artigo chamar a atenção de alguns companheiros que, absorvidos com a prática assistencialista, esquecem-se ou ignoram, a assistência espírita. O projeto da Doutrina Espírita não faz opção pelo pobre ou pelo rico, por ensinar serem ambos espíritos imortais caminhando pela senda das experiências evolutivas.

O Espiritismo faz, sim, opção pelas chamadas “ovelhas desgarradas” estejam onde estiverem, para que, ouvindo os ensinamentos, conheçam a Verdade e se libertem.

Fica aqui o apelo: se estivermos realmente interessados na verdadeira caridade, divulguemos a Doutrina Espírita, sem nos afastarmos de Kardec, pois desse modo combateremos em nós o egoísmo e a vaidade, os fomentadores da ignorância, e como tais, as fontes de todas as injustiças.Onde houver o evangelho em prática, não haverá pobreza.

 

Geólogo da turma de 1971 USP, Membro da equipe do programa Momento espírita da USE presidente da Distrital Pinheiros USE.

Natural do Rio de Janeiro (RJ) e radicado há muitos anos em Florianópolis (SC), Marcelo Henrique se tornou espírita em 1981, vindo do catolicismo. É Secretário Executivo da Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo (ABRADE) e presidente da Associação dos Divulgadores do Espiritismo de Santa Catarina (ADE-SC), assim como do Centro Cultural Espírita Herculano Pires, em São José (SC). Também é delegado da Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA), associado da Associação Brasileira de Amigos e Delegados da CEPA (CEPA-Brasil), do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CP-Doc) e da Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas da Paraíba (ASSEPE). Atua, ainda, como representante da ABRADE, no Fórum das Entidades Especializadas de Âmbito Nacional, junto à Federação Espírita Brasileira. É Editor-Chefe da Revista Espírita HARMONIA, um periódico eletrônico e, como escritor e articulista, tem artigos e pesquisas em diversos sites, assim como é autor de “Túnel de Relacionamentos” (Ed. EME) e “Alteridade: a diferença que soma” (Ed. INEDE).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.