Espíritas progressistas respondem à entrevista coletiva de Divaldo Franco e Haroldo Dutra no congresso de Goiás

Nota de resposta à entrevista coletiva de Divaldo Franco e Haroldo Dutra no congresso de Goiás

Espíritas que somos, os abaixo-assinados, tornamos pública a nossa desaprovação a diversas opiniões que foram expostas no vídeo que circulou essa semana nas redes sociais, e que depois foi retirado do Youtube.

Declaramos que elas não nos representam e não representam o espiritismo, pois são apenas opiniões pessoais de seus autores, e que, em nosso entender, carecem de fundamento teórico e científico.

Aliás, médiuns e oradores não têm autoridade para falar em nome do espiritismo.

Ninguém tem essa autoridade, nem mesmo instituições federativas.

O espiritismo é uma ideia livre, cuja maior referência é Kardec

Mas cujos livros também não podem ser citados como bíblia.

Para manifestarmos ideias e posições do ponto de vista espírita, segundo a própria metodologia proposta por Kardec, temos de dialogar com a ciência de nosso tempo, usar argumentos racionais e adotar de preferência posturas que estejam de acordo com os princípios básicos da ética espírita, que são os da liberdade de consciência, amor ao próximo, fraternidade, entre outros.

O movimento espírita brasileiro está longe da unanimidade em todos os temas, sobretudo os que se referem a questões contemporâneas e, por isso, é importante delimitar as posições, para deixarmos claro que declarações como as que foram feitas neste vídeo não representam o espiritismo.

Dessa forma, rebatemos alguns pontos da referida entrevista:

  1. Divaldo referiu-se à República de Curitiba e a seu suposto “presidente”, Sérgio Moro. Não existe uma República de Curitiba, pois segundo nossa Constituição só há uma República a ser reconhecida em nosso território, e é a República Federativa do Brasil.
    E a referência a um juiz federal de primeiro grau como o Presidente desta acintosa República é um grave desrespeito ao Estado, à nação brasileira, atribuindo a tal república poderes inexistentes em nossa Constituição.
    Além dessa nociva postura marcadamente messiânica e de culto à personalidade, pode dar a entender que o restante do povo brasileiro não presta e que não há pessoas boas espalhadas pelo Brasil dando o melhor de si.
  2. Divaldo chama esse mesmo juiz de “venerando” – o que é altamente questionável, dadas as críticas de grandes juristas nacionais e internacionais à parcialidade desse juiz e a seus atos de ilegalidade, que feriram a Constituição, e às notícias que correm na mídia de seu conluio com determinados segmentos e partidos.
  3. Divaldo assume uma postura claramente partidária, contrária ao PT – o que é de seu pleno direito, mas nunca em nome do espiritismo – fazendo, porém, uma crítica rasa, com uma miscelânea conceitual, chamando o governo desse partido de marxista e assumindo um discurso próprio da polarização extremista, manipulada e sem consistência que invade nossas redes sociais e nossa vida política, contribuindo para os momentos de incertezas e de medos em que vivemos.
  4. Há uma fala extremamente problemática que se refere à chamada “ideologia de gênero”. Não existe “ideologia de gênero” – este é um termo criado por setores fundamentalistas da Igreja Católica e depois adotado pelas Igrejas Evangélicas. Existe sim uma área de pesquisa no mundo que se chama “Estudos de Gênero” – que teve influência de Michel Foucault, Simone de Beauvoir e Judith Buttler. Os “Estudos de Gênero” se dedicam a procurar entender como se constitui a feminilidade e a masculinidade do ponto de vista social, se debruçam sobre questões de orientação sexual, hétero, homo, transsexualidade – ou seja, todos fenômenos humanos, que estão diariamente diante de nossos olhos. Podemos concordar com algumas dessas conclusões, discordar de outras, deixar em suspenso outras tantas. Esse olhar é muito recente na história e ainda estamos apalpando questões profundas e complexas – e em nosso ponto de vista espírita, não é possível ter plena compreensão delas sem a chave da reencarnação. Uma abordagem puramente materialista jamais vai dar conta do pleno entendimento do psiquismo humano. Mas estamos muito longe de ter gente reencarnacionista competente, fazendo pesquisa séria, para dialogar com pesquisadores com abordagens meramente sociológicas ou psicológicas. Então, nós espíritas, não temos ainda melhores respostas que os outros e não podemos, por cautela, seguir a cartilha dos setores conservadores mais radicais de generalizar esses estudos sob o termo, usado aqui pejorativamente, de ideologia, para desqualificá-los como “imoralidade ímpar”. Parece-nos que uma dose de humildade científica, prudência filosófica e bom-senso faria bem a todos nesse ponto, especialmente quando o domínio sobre os corpos e a sexualidade sempre foi um ponto central para as religiões ocidentais.
  5. Divaldo revela também completo desconhecimento dessa área de estudos de gênero, alinhando-a ao marxismo e ao comunismo. As grandes lideranças desses estudos estão nos Estados Unidos e na Europa. Aliás, os estudiosos desse tema encontram-se em diversas correntes de pensamento, desde marxistas até pós-modernos de diferentes matizes e até liberais. Ao fazer isso, mais uma vez, mostra a adesão a um discurso pronto, midiático, que ressoa nos setores evangélicos e católicos mais radicais, que primam por taxar qualquer ideia ou debate que lhes desagrade com o termo “comunista” – um grande espantalho generalizante, simplista e esvaziado de sentido, mas que tem sido eficaz, ao longo dos tempos, para dar forma a medos sociais e, assim, orientar o ódio e o ressentimento das pessoas contra certos alvos.

Por fim, deixamos aqui as seguintes afirmações:

  • Nenhum médium ou orador pode falar em nome de todos os espíritas ou em nome do espiritismo. Isso é, por si só, desonestidade intelectual;
  • Quando um espírita, sobretudo se tem influência sobre a comunidade, manifesta uma ideia ou uma opinião, tem por dever se informar sobre os temas de que está falando, usar referências confiáveis e estar em consonância com a lógica, com a ciência e com o bom senso.
  • Deve também, preferencialmente, defender os direitos dos mais fragilizados socialmente, no caso, as mulheres, as crianças, os membros da comunidade LGBT+, que são objeto dessas discussões dos estudos de gênero, justamente por estarem vulneráveis a todo tipo de violência e desrespeito em nossa sociedade, além dos negros e negras, as juventudes periféricas e as pessoas com deficiência.
  • Não deve alimentar discursos de ódio partidário e nem medidas punitivas contra quem quer que seja: nossa bandeira é a da educação, da fraternidade entre todos e da paz, comprometidos com a democracia, a justiça social e a regeneração da sociedade.

Abaixo Assinaram:

Adriana Jaeger Santos, RS

Agnes Vitória Cabral Rezende, MT

Alana de Andrade Santana, BA

Alessandro Augusto Arruda Basso, SP

Alessandro Cesar Bigheto, SP

Alexandre Mota, SP

Alexandro Chazan, SP

Álvaro Aleixo Martins Capute, MG

Carlos Augusto Pegurski, PR

Carlos Sérgio da Silva, SP

Claudia Gelernter, SP

Claudia Mota, SP

Cynthia Maria Fiorini Santos, SP

Dalva de Souza Franco, SP

Dalva Radeschi, SP

Dennylson de Lima Sepulvida, SP

Dora Incontri, SP

Douglas Neman, SP

Eduardo Alves de Oliveira, SP

Eduardo Lima, CE

Erica de Oliveira, SP

Felipe Gonçalves, SP

Felipe Sellin, ES

Fernando Fernandes, SP

Franklin Felix, SP

Gilmar da Cunha Trivelatto, SP

Glauco Ribeiro de Souza, SP

Hélio Ribeiro, MG

Izaias Lobo Lannes, MG

João Carlos de Freitas, SP

Jandyra Abranches, ES

Juçara Silva Volpato, ES

Leandro Piazzon Correa, SP

Litza Amorim, SP

Lorisani Marisa de Leão de Souza, RS

Luciano Sérgio Ventin Bomfim, BA

Luis Gustavo Carvalho Ruivo Andrade, SP

Luis Márcio Arnaut, SP

Luziete Maria da Silva del Poggetto, SP

Marcel Pordeus, CE

Marcelo Henrique Pereira, SC

Marcos Wilian Silva MT

Maristela Viana França de Andrade de Aragarças GO

Maristela Viana França de Andrade, GO

Maurício Zanolini, SP

Murilo Negreiros, SP

Patrícia Imperato Malite, SP

Pedro Camilo, BA

Raphael Faé, ES

Roberto Colombo, SP

Samantha Lodi, SP

Sebastião do Aragão, SC

Sérgio Aleixo, RJ

Silvia Bueno, SP

Sinuê Neckel Miguel, RS

Suzana Leão, RS

Tatiane Braz Comitre Basso, SP

Thiago Rosa, SP

Tiago Fernandes, PR

Vinicius Lara, MG

Willan Silva, ES

Yuri David Esteves, SP

Veja o trecho da declaração de Divaldo a esse respeito na no Congresso de Goias

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19 MIRIAN FERREIRA MG maio 18, 2018
18 Richard Medeiros RJ maio 12, 2018
17 FABIOLA KARLA FACHETTI CRISTO Espírito Santo maio 10, 2018
16 Thiago Campos Monteiro PR maio 01, 2018
15 Selma Nanci Feltrin Feltrin Feltrin p RS maio 01, 2018
14 Thiago Lima SC maio 01, 2018
13 Jozi Elen Dos Santos Fleck SC maio 01, 2018
12 Paulo Silva Sp abr 28, 2018
11 Luísa Fajardo MG abr 21, 2018
10 Anete Copelli SP abr 09, 2018
9 Laura Carvalho RJ abr 08, 2018
8 João Bosco de Almeida Souza Mato Grosso abr 07, 2018
7 Cristina Lima Estados Unidos abr 07, 2018
6 Jairo Lima Pernambuco abr 04, 2018
5 Renata Giovanella Rio de Janeiro/RJ abr 03, 2018
4 Luciana Silveira Afonso R.J/ R.J. abr 02, 2018
3 Ana Carolina Pasqua Purcena e Silva SP abr 01, 2018
2 Mara L Rosa RS abr 01, 2018
1 Alfredo Karras PE mar 14, 2018

 

Clique aqui para ser redirecionado ao grupo Espiritismo com Kardec

Natural do Rio de Janeiro (RJ) e radicado há muitos anos em Florianópolis (SC), Marcelo Henrique se tornou espírita em 1981, vindo do catolicismo. É Secretário Executivo da Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo (ABRADE) e presidente da Associação dos Divulgadores do Espiritismo de Santa Catarina (ADE-SC), assim como do Centro Cultural Espírita Herculano Pires, em São José (SC). Também é delegado da Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA), associado da Associação Brasileira de Amigos e Delegados da CEPA (CEPA-Brasil), do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CP-Doc) e da Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas da Paraíba (ASSEPE). Atua, ainda, como representante da ABRADE, no Fórum das Entidades Especializadas de Âmbito Nacional, junto à Federação Espírita Brasileira. É Editor-Chefe da Revista Espírita HARMONIA, um periódico eletrônico e, como escritor e articulista, tem artigos e pesquisas em diversos sites, assim como é autor de “Túnel de Relacionamentos” (Ed. EME) e “Alteridade: a diferença que soma” (Ed. INEDE).

9 Replies to “Espíritas progressistas respondem à entrevista coletiva de Divaldo Franco e Haroldo Dutra no congresso de Goiás”

    1. Então o espírita Clayton ainda acredita nessa bobagem de marxismo e mais valia? Olha, rapaz, hoje a mais valia foi parar, literalmente, na China comunista.

  1. Adoro Divaldo, mas acredito que faltou cautela! Primeiro o Brasil desde que é brasil tem muita corrupção.. não foi o PT que inventou… E que o trabalho de Moro sirva para nós brasileiros acreditar que isso não é normal, nem aceitável, e que devemos acreditar e se movimentar por um Brasil melhor e mais justo!

    O que tem de amoral em uma teoria que defende a não exploração do homem pelo homem!?!?! Tem algo mais cristão?

    As diversas orientações sexuais estao presentes… Seja provações ou expiações que o indivíduo tenha quê passar, e devemos como espíritas nunca perder a compaixão pela dor dos outros! Sermos tolerantes/ o objetivo dessas cartilhas são o respeito e a tolerância que devemos ter para essa diversidade!

    Marx e o comunismo (que nunca existiu experiências na face da terra) são demonizado e pouco estudado!

    1. Pois essa “teoria” na verdade é uma ideologia que escravizou centenas de milhões de seres-humanos. As relações de trabalho num ambiente capitalista são voluntárias e imensamente mais livres do que num sistema socialista!
      Quanto à corrupção, é preciso distinguir a corrupção “normal”, aquela que corre em malas carregadas por pessoas que correm, que é aquela que faz parte da nossa (triste) política há décadas e décadas, daquela corrupção que serve para financiar projetos autoritários de poder. Esta última custa muito mais ao povo.
      O que mais se faz no mundo é estudar o marxismo! E o comunismo utópico nunca vai se realizar na prática, pois é incompatível com a natureza humana.

    2. Como espirita, fiquei estupefato com as opinioes de Divaldo Franco nessa questao politica e questao de genero. Inclusive usando “xingamentos” tipo “acusando” esse e aquele de serem “comunistas”,”marxistas”. Sua “analise” da questao de genero e’ lamentavel, pela carencia de informacao verdadeira e achismos preconceituosos.

      Eu vivo na Europa, e acho que esta questao de generos – que esta’ sendo bastante glamourizada pela midia ocidental – e’ uma questao grave, fadada a criar confusoes nas cabecas infantis e juvenis a ela, supostamente, expostas. Mas dai’ a vir com pedras na mao, estilo evangelico e catolico conservador reacionario, atacando aqueles que NAO aderiram a essa narrativa virulenta e fascista do golpe de estado contra as instituicoes brasileiras e’ algo muito diferente.

      Muito grato por esses espiritas progressistas por virem a publico mostrando que nem todos os espiritas foram cooptados pela Globo, na questao politica, ou Record e Cancao Nova na questao de genero – assim como pelo resto da midia famigliar e realmente manipuladora que temos no Brasil.

      Tambem estou surpreso com a quantidade adeptos de Ayn Rand, Friedrich Hayek, Ludwig von Mises, Milton Friedman e Darwinistas sociais – todos os elementos constituintes do pensamento filosofico/politico/economico/cultural do neo-liberalismo. Esses espiritas sao esquizofrenicos ou mal informados intelectualmente ? Dificil acreditar que sejam apenas inconscientes ou ingenuos. O neo-liberalismo, o libertarianismo individualista, sao antipodas do pensamento cristao. Eles nao percebem isto ?

  2. O juiz Moro agiu e decidiu com base na Lei, o que foi referendado pelo TRF-4. Acho que não é bem ele que se deixa levar por inclinações ideológicas e partidárias…
    Chega de relativismo moral!

  3. Cristo disse: a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. A dita “democracia” progressista não sabe conviver com a opinião diferente; outrossim, médiuns são tão imperfeitos quantos os ouvintes a favor ou contra; não existe médium infalível; a opinião de um médium não representa a de mais ninguém a não ser dele mesmo; nem Jesus agradou que dirá um médium; Divaldo nunca disse nem assumiria “falo em nome de…”.
    Ninguém tem estirpe, cancha, para opinar a favor ou contra a Concordância Universal do Ensino dos Espírits. Somos Espíritos encarnados que seremos muito obtusos, alienados ou ignorantes se formos duvidar das consolaçöes do mundo maior.
    Trazer a politização ao Espiritismo como espiritualidade é o mesmo que se questionar ser Espírita se sequer instalar um estado “laico” para sua consciência.
    É um absurdo opinar pela opinião alheia. Ninguém está pedindo que concordem. Cumpre mais agir em praticar a Caridade pura e desinteressada do que vasculhar e resfolegar nas discussões indébitas, desparcimoniosas e jubjugante ao orgulho individual ou de um grupo. Convenhamos, além de desnecessário, é inûtil.

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