O Trinta de Junho e a Crítica da Obra Xavieriana

Se Allan Kardec tivesse sido contemporâneo de Francisco Cândido Xavier, que cenário e que panorama teriam sido, por ele, destacados?

Qual a Visão que o Bom Senso Reencarnado Teria do Homem-Amor?

É fato que Kardec, a seu tempo, adotou e assumiu um papel que, embora não tivesse qualquer característica de censura e classificação tanto em relação a textos e obras, quanto dos médiuns propriamente.

Mas, com a consciência clara a respeito dos postulados espíritas, pôde avaliar criticamente mensagens e fenômenos que chegaram ao seu conhecimento.

No Contexto da Obra Kardeciana

No contexto da obra kardeciana, é possível verificar essa análise criteriosa que permitiu ao Codificador o diálogo franco, aberto e respeitoso com aqueles que, a partir da mediunidade, apresentavam contribuições (ou não) para o edifício espírita, assim como para os críticos, religiosos ou não, que se debruçavam sobre a teoria espiritista.

A Mediunidade do Cisco de Deus é Conhecida e Reconhecidamente Relevante

Chico é, sem dúvida alguma, um dos maiores expoentes do chamado espiritismo brasileiro, em face de sua destacada produção literária, a partir da assinatura de centenas de espíritos diferentes.

Quanto à chamada mediunidade de efeitos físicos, Chico igualmente protagonizou “eventos” que foram retratados por órgãos de imprensa, sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, ocupando destacado espaço na mídia brasileira e, até, internacional.

Mesmo que haja, aqui ou ali, denúncias ou suspeitas, a fenomenologia em muitos casos demonstra a pertinência dos fatos em relação aos postulados espíritas.

Um Ponto Deve Ser Destacado:

A popularização do conhecimento espírita a partir dos fatos mediúnicos e das obras escritas em parceria por Chico e as inteligências invisíveis.

E isto é essencial para qualquer análise em relação ao Espiritismo de hoje, aquele que é praticado nas milhares de instituições espíritas brasileiras.

Deve-se destacar que o homem mineiro jamais foi um espírita stricto sensu.

Em diversos diálogos, alguns contidos em livros biográficos e outros expressos em entrevistas ou conversações gravadas, Chico sempre admitiu sua “pouca cultura” espírita.

Chegou a Afirmar, Certa Feita

que conhecia (bem) as obras “O Evangelho segundo o espiritismo“, “O livro dos espíritos” e “O livro dos médiuns“, admitindo certa dificuldade em relação a abordagens mais científicas ou filosóficas, contidas, por exemplo, nos volumes da Revue Spirite.

Xavier, foi, em Verdade, Durante toda a Existência

Um católico espírita, circunstância demonstrada em sua destacada devoção à figura de Maria de Nazaré, que ele sempre cognominou de “Mãe Santíssima”, em alusão à identidade católica desta personagem (com seus dogmas e referências específicas), além da presença de artefatos religiosos católicos em sua residência e, até, na instituição em que militava.

Kardec teria se Concentrado em Tais Detalhes?

Penso que sim, sobretudo em relação à orientação expressa na contextura espírita de que não seriam adotadas quaisquer práticas comuns a outras religiões, sobretudo as correlacionadas à adoração e ao culto (exterior).

Ainda que a análise fosse acessória e complementar, posto que o elemento essencial das avaliações kardecianas se dava em relação ao “mérito”, isto é, ao teor das comunicações, Kardec também realizou análises em relação ao modus operandi de médiuns ou representantes de instituições espíritas, sempre comparativas e prospectivas, tomando por base as orientações dadas pelos espíritos e o conjunto de elementos que ele produziu para a caracterização das reuniões e das sociedades espiritistas.

Neste sentido, Kardec, Entretanto, Não Teria Censurado Chico

Mas teria tido a excelência de análise buscando separar a produção mediúnica do contexto das atividades públicas presentes em torno da figura deste personagem.

E teria destacado a liberdade de ação e de convicção, para dizer, em alto e bom tom que certas ações ou situações não estariam em conformidade com a chamada organização das atividades espíritas que ele – e os Espíritos Superiores – haviam sugerido.

Chico é reconhecido mundialmente como alguém que, por seu intermédio, possibilitou aos desencarnados a voz (e a tinta) para se dirigirem à Humanidade.

Por sua psicografia, foi possível reencontrar vultos do passado, sobretudo aqueles da literatura em língua portuguesa, que voltavam para demonstrar aos céticos e aos curiosos de seu tempo e os de agora, que a continuidade da vida e a comunicabilidade entre “vivos” e “mortos” não era matéria exclusiva dos mistérios religiosos, mas realidade intertemporal e permanente.

É realmente emocionante ver uma página literária assinada por um Castro Alves, um Casimiro de Abreu, um Cruz e Sousa, um Augusto dos Anjos ou um Olavo Bilac. Os mesmos estilos e métricas, a mesma “presença” destes autores, revisitada em páginas novas, algumas tratando de temáticas genuinamente espíritas.

Neste particular, Kardec teria examinado com acuidade o estilo das produções mediúnicas e, certamente, avaliaria como verdadeiras as assinaturas nelas contidas, demonstrando a continuidade das habilidades nas letras de seus autores desencarnados.

E, também, em relação a outro vértice da produção chicoxavieriana, o homem Rivail, circunspecto, sisudo e habilidoso, teria atestado a veracidade de inúmeras comunicações produzidas em Uberaba, na sequência de anos em que o medianeiro mineiro teria recebido as “mães de Chico Xavier”, desesperadas ante os precoces falecimentos de seus filhos, ansiosos para receberem o conforto espiritual decorrente de uma mensagem a elas dirigida, pelas mãos, já bastante trêmulas, na última fase da trajetória de Xavier, demonstrando a transcontinuidade e a transcomunicabilidade.

Os desencarnados estavam mais vivos do que nunca

E podiam, emocionados e saudosos, trazer seus alentos para os que aqui permaneciam. Tenho certeza que a perscrutação e o elevado senso de observação de Rivail teria constatado, para sua satisfação, que a dinâmica e plural mediunidade de Chico era um atestado claro e constante da mediunidade como ferramenta espiritual e dos espíritas, para direcionar os indivíduos encarnados à destacada missão reservada à Filosofia Espírita: o desenvolvimento moral a partir do conhecimento (espiritual).

Ainda no âmbito da investigação e da criticidade, Rivail teria tido bastante atenção para analisar a parte mais destacada da relação médium-espírito presente na obra xavieriana:

A influência de dois espíritos, notadamente, um por toda a trajetória e outro, em parte dela, ou seja, pela ordem, Emmanuel e André Luiz.

Sobre estes dois autores espirituais, permitam-nos estabelecer alguns pontos relevantes de análise:

  1. Acentuada dependência do médium ao seu “guia espiritual” –

    1. Embora Chico tivesse relatado que o orientador espiritual, principal presença em sua “carreira” mediúnica, Emmanuel, o tivesse alertado para “comparar seus escritos” com os de Kardec, não há nenhum registro específico de que ele, o médium, tivesse feito avaliação das páginas recebidas, sobretudo em caráter comparativo. Do contrário, as páginas – depois livros – seja os romances tidos como históricos (a exemplo de “Há dois mil anos” e “Paulo e Estêvão”), os livros “histórico-sociológicos” (como “A Caminho da Luz”) e a centena de livros “filosófico-doutrinários” (como “Boa Nova”, “O Pão Nosso”, “Emmanuel” e tantos outros), jamais foram “comparados” com os livros editados por Rivail, razão pela qual apresentarem elementos que são, notadamente ou veladamente, para uma primeira análise de quem os lê, contraditórios e conflitantes com os livros kardecianos.
  2. Caráter excessivamente religioso

    1. Com relevância de elementos da doutrina religiosa do Catolicismo, nas páginas de caráter moral ditadas por Emmanuel, decorrentes da trajetória humana da individualidade encarnada – presumida ou informada como sendo o Padre Manuel da Nóbrega (1517-1570), sacerdote jesuíta que participou do processo de colonização do Brasil, por Portugal. A “embocadura” do espírito é flagrante em diversos conceitos esposados em suas obras, aproximando, de forma indevida, os elementos espíritas com fragmentos da cultura e da ideologia (liturgia) católica, favorecendo, com isso, a chamada popularização do espiritismo, circunstância, inclusive, tratada por Kardec em seu texto retro e prospectivo chamado “Períodos do Espiritismo”, na Revue, em que se destaca o chamado período religioso da Doutrina dos Espíritos e contemplando a chamada miscigenação e multicultura presente em nosso país.
  3. Descrições do chamado “mundo espiritual” na Série “André Luiz” (16 livros)

    1. Bastante desconformes em relação aos cenários espirituais contidos na Codificação, com detalhamento de circunstâncias, cenários e situações “parafísicas” ou “semimateriais”, presentes nas narrativas ditadas pelo personagem (que se auto identificou como um médico que atuou no Rio de Janeiro, nas primeiras três décadas do século XX), discordantes daquilo que foi apresentado pelos Espíritos Superiores, tanto nas chamadas “Obras Fundamentais” do Espiritismo, como as sucessivamente descritas nas dissertações contidas na Revue – muitas das quais apropriadas, depois, em revisões e republicações das primeiras.
  4. Desconformidade dos conceitos contidos sobretudo nas obras ditadas por Humberto de Campos

    1. Em relação à contextura planetária e à “hipotética” missão do Brasil no conjunto das nações deste orbe, com relatos fantasiosos de eventos (reais ou projetados) do passado e a sua “consequência” no futuro – que já é presente, posto que a obra foi editada na primeira metade do século passado), “antevendo” situações que, segundo o relato, deveriam ocorrer, mas que (ainda) não se verificaram.
  5. Validação de comunicações obtidas por um só médium (Chico Xavier)

    1. E ditadas por um espírito (seja Emmanuel, seja André Luiz, seja Humberto de Campos, ou qualquer outro), sem o critério de validação estabelecido por Kardec na formação e constituição do Espiritismo, denominado de Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos (CUEE), para a consideração dos conteúdos derivados da mediunidade como conformes ou não aos postulados espíritas.

Nem por isso devemos desconsiderar a extensa obra de Chico Xavier.

Do contrário, como as instituições e grupos não costumam estudar comparativamente nem produzir material crítico e fundamentado a partir de judiciosas e oportunas análises, não se tem, até hoje, nenhuma série de análises específicas sobre, senão toda, mas a parte mais proeminente da produção literária assinada pelo médium mineiro, preferindo, o movimento espírita, cunhar todos os livros como “literatura espírita complementar”, o que é precipitado e equivocado, posto que o homem Chico Xavier possuía, assim como todos os que colaboraram com a Codificação, muitas virtudes, mas também defeitos, dada a natureza humana e a qualificação dos espíritos, segundo a Escala Espírita (“O livro dos espíritos”, item 100 e seguintes) pertinente ao orbe de “provas e expiações”, como é a Terra.

Produzo este artigo em comemoração à data em que Chico Xavier encerrou sua (até aqui última) romagem terrena (30 de junho de 2002)

Com o coração aberto em reconhecimento à figura ímpar de Francisco Cândido Xavier, o “homem-amor”, o “Cisco de Deus”, pela condição de ter contribuído para a difusão do Espiritismo, enquanto doutrina filosófica e para a popularização (conhecimento público) correlata.

Mas reconheço que a avaliação póstuma contida nestas linhas, acerca da trajetória mediúnica e da produção literária de Chico, talvez não seja bem aceita e interpretada pela maioria dos espíritas que conheço, os quais confundem Obra e Autor e acham que a crítica – sobretudo a embasada em Kardec e na própria estrutura contida na Codificação – deve ser evitada.

Tenho certeza de que se Kardec tivesse sido, ainda que por pouco tempo, contemporâneo de Xavier, teria feito uma análise completa e detalhada do conteúdo lítero-mediúnico deste último, com contribuições essenciais e destacadas ao conhecimento não só do conteúdo de principiologia espiritista, como da fenomenologia mediúnica em si.

Tarefa essa, inclusive, que os espíritas do tempo do Chico e os subsequentes jamais realizaram e que poderiam, com respeito e técnica espírita, gerado resultados muito positivos para o próprio desenvolvimento do Espiritismo – e de seu movimento.

O legado de Chico Xavier, assim, intocado e sem análise, figura como obra mediúnica sem conexão direta e necessária com a Filosofia Espírita.

Uma pena!

 

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Natural do Rio de Janeiro (RJ) e radicado há muitos anos em Florianópolis (SC), Marcelo Henrique se tornou espírita em 1981, vindo do catolicismo. É Secretário Executivo da Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo (ABRADE) e presidente da Associação dos Divulgadores do Espiritismo de Santa Catarina (ADE-SC), assim como do Centro Cultural Espírita Herculano Pires, em São José (SC). Também é delegado da Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA), associado da Associação Brasileira de Amigos e Delegados da CEPA (CEPA-Brasil), do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CP-Doc) e da Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas da Paraíba (ASSEPE). Atua, ainda, como representante da ABRADE, no Fórum das Entidades Especializadas de Âmbito Nacional, junto à Federação Espírita Brasileira. É Editor-Chefe da Revista Espírita HARMONIA, um periódico eletrônico e, como escritor e articulista, tem artigos e pesquisas em diversos sites, assim como é autor de “Túnel de Relacionamentos” (Ed. EME) e “Alteridade: a diferença que soma” (Ed. INEDE).

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