Qual GÊNESE é de Kardec?

Qual GÊNESE é de Kardec?

A discussão acerca da autenticidade e da autoria do último livro (completo, fundamental) assinado por Allan Kardec, não é nova.

Nem na França, nem no Brasil.

Sabidamente, o Professor Rivail (Allan Kardec) desencarnou em 31 de março de 1869, de forma abrupta, com o rompimento de um aneurisma.

Deixou a obra, por assim dizer, inacabada, não obstante no conjunto de sua profícua atuação como o Introdutor da Doutrina dos Espíritos (também considerado como Autor Intelectual, Consolidador, Codificador, Pai do Espiritismo, Organizador ou similares, que lhe possam ser atribuídos ou considerados), entre os anos de 1857 e 1869, produzindo um total de 32 obras, considerada toda a sua produção literária espírita.

Ao Desencarnar

Kardec deixou no prelo o fascículo de abril de 1869, da “Revue Spirite”, pronto em tipografia, razão pela qual todos os demais, deste ano (1869) devam ser objeto de acurada análise investigativa, para perceber,  nos textos, a fidedignidade ao professor francês ou a ação de terceiros, intencional, em apor elementos, informações e conceitos que não são compatíveis com o “corpo doutrinário” do Espiritismo.

O mesmo se dá com a edição de “Obras Póstumas” (janeiro de 1890), quase 21 anos após o desaparecimento físico de Rivail.

O contexto kardeciano precisa, pois, ser respeitado. O mesmo espírito crítico, lógico-racional, investigativo, de fé raciocinada, de análise criteriosa de textos (psicografados ou não) que acompanhou toda a trajetória de Kardec deve ser o roteiro, o mapa e a bússola de todo estudioso espírita.

Voltando à obra “A Gênese”, tem-se que, durante o ano de 1868, o professor lançou quatro edições da mesma, todas idênticas entre si, feitas a partir das mesmas matrizes tipográficas. Pela criteriosa investigação “in loco” feita por Simoni Privato Goidanich – que gerou o livro “O legado de Kardec” – foram identificadas todas as formalidades legais vigentes na França de Napoleão III, para o depósito, a autorização legal e a publicação de cada uma das quatro edições.

Para nós, que hoje nos debruçamos sobre a questão com destacado interesse, os originais em francês, da primeira à quarta edição, são totalmente iguais.

Quem analisa conjunturalmente a produção literária espírita de Rivail observa que a Revue era, também, um veículo de divulgação das novas edições que ele publicaria, de suas obras. Assim, por exemplo, em relação às chamadas obras fundamentais, há a menção explícita de publicação de novas edições, inclusive com alterações. Esta é uma marca importante do trabalho de Kardec, sobretudo para perceber que, para uma futura (quinta) edição do livro em tela, não houve qualquer advertência do professor.

Após a morte de Kardec as disputas pela “direção” do movimento e da própria Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (SPEE), assim como pela Revue acabaram sendo mais evidentes.

Em um dos grupos estava Pierre-Gaëtan Leymarie, que foi o responsável direto pela publicação da 5ª edição de “A Gênese”, com a expressão “revista, corrigida e aumentada”.

O grupo de Leymarie, mais proeminente, criou a “Sociedade Anônima para a Continuação das Obras de Allan Kardec e a Revista Espírita”, a qual, infelizmente, se dissociou dos próprios caminhos e orientações traçados pelo Mestre. Era preciso agir. E o grupo fiel a Rivail e ao Espiritismo buscou forças e inspiração para criar a União Espírita Francesa, com mais de 400 espíritas, unidos a Amélie, Berthe Froppo, Gabriel Delanne, León Denis e muitos mais, acompanhando a viúva, Madame Kardec, até o seu falecimento (1883).

Em 1884, o amigo e biógrafo de Kardec, Henri Sausse faz uma acusação formal contra Leymarie

Em 1884, o amigo e biógrafo de Kardec, Henri Sausse faz uma acusação formal contra Leymarie, afirmando peremptoriamente que ele havia alterado (adulterado) o livro e tal manifestação foi corroborada por vultos ilustres que permaneciam à frente do movimento, entre os quais, Delanne, Denis e os remanescentes da Comissão Central, criada pelo Codificador. Leymarie, neste episódio, atribuiu o conjunto de alterações a uma revisão feita por Kardec, o que não foi aceito por aqueles, tendo em vista que a nova edição trazia muitos pontos contrários ao que Kardec havia defendido nos quase doze anos de trabalho espírita.

Como Leymarie permaneceu à frente da SPEE e esta era responsável pelos direitos de publicação dos livros kardecianos, em relação à obra em comento, ficou “valendo” a edição adulterada, nas publicações em francês e, também, nas traduções para vários idiomas, ficando completamente esquecida a edição original de Kardec, a de 1868.

O assunto ficou meio que em banho-maria até a década de 1960 quando alguém levantou a “lebre” de considerar uma edição póstuma de uma das obras de Kardec, e não as que tinham sido, por ele, editadas, tendo como essência as alterações (não de forma, mas de essência, de conteúdo), que tornavam a quinta edição totalmente desvinculada a outros elementos contidos nas demais obras do Codificador. Uma “cirurgia desnaturadora” da obra mais densa de Kardec, a mais científica de todas.

Como o assunto, de certa forma, passou a ocupar, por meio de burburinhos, as instituições federativas e os grandes centros espíritas do país, a Federação Espírita Brasileira (FEB) incumbiu Zêus Wantuil – que, aliás, assina densa obra biográfica de Kardec, em originais três volumes, depois dois, em conjunto com Francisco Thiesen – de realizar um estudo comparativo entre as edições em confronto.

Para a federativa, como, aliás, foi repetido em “nota oficial”, de janeiro de 2018, de que as alterações seriam de Kardec, que visou aperfeiçoar toda sua obra.

Erros tipográficos e de francês foram corrigidos, palavras inadequadas foram substituídas, frases importantes foram destacadas em itálico, numerações repetidas de parágrafos foram sanados, alguns parágrafos foram deslocados de posição para melhor se adequarem ao encadeamento das ideias que estavam a ser expostas, passagens repetidas ou já desenvolvidas em outras obras foram suprimidas, inclusive algumas de certa extensão, subtítulos e novos itens foram acrescentados, mas tudo sem ferir a harmonia do conjunto e sem atentar contra o conteúdo doutrinário dos ensinamentos revelados pelos Imortais.

Retornou, com mais vigor, em 2006, por meio de redes sociais vinculadas ao movimento espírita, quando, em um estudo coordenado pelo Professor Carlos de Brito Imbassahy, que visava estudar a última obra de Kardec, o mesmo percebeu que a versão (em francês) que tinha em mãos, e que ele traduzia a cada sessão de estudos, tinha diferenças – não pequenas – em relação às edições que os participantes tinham em mãos, a maioria publicações da FEB, sob a tradução de Guillon Ribeiro.

Ao perceber as inúmeras distinções, Imbassahy se indignou e acreditou tratar-se de uma alteração capitaneada pela federativa brasileira, no que estava equivocado. O texto, adulterado, já vinha do original francês, como foi confirmado por Simoni em sua vasta e detalhada pesquisa.

Carlos de Brito, assim, passou a realizar uma tradução completa da obra e disponibilizou o material pela internet, nos grupos de estudo e por meio de sites que se interessaram pelo texto.

O Centro Espírita León Denis, do Rio de Janeiro, conhecida e destacada instituição espírita, por sua editora resolveu, então, patrocinar uma outra tradução e, com base no original francês da terceira edição de Kardec, confiou a Albertina Escudeiro Sêco a missão de traduzir, publicando, na sequência, a primeira tradução brasileira correta sobre “A Gênese”. Mas a edição não ganhou popularidade e o assunto novamente esfriou no “movimento”.

Com a publicação, pela USE, do livro de Simoni, o interesse da Fundação Espírita André Luiz (FEAL ), de São Paulo

E de um numeroso grupo de estudiosos espíritas que vinham trabalhando a questão do exame das obras de Kardec, encontrou ressonância no grupo “Espiritismo COM Kardec”, do Facebook e, a partir da convivência e dos diálogos iniciados nesta ambiência, foi possível idealizar e executar o projeto.

Paulo Henrique de Figueiredo, conhecido pesquisador, passou a coordenar o trabalho e incumbiu Marcelo Henrique, que tinha contato pessoal de mais de duas décadas com o Professor Imbassahy, para obter a autorização jurídica para a publicação da edição restaurada pela FEAL.

Também participaram ativamente da composição da edição recuperada, a própria Simoni Privato, Júlio Nogueira, Paulo Henrique, Marcelo Henrique e Lucas Sampaio (que fez a revisão dos textos de apresentação).

Na revisão da tradução uma equipe multidisciplinar formada por Álvaro Glerean, Conde Fouá Anderaos e Cristina Sarraf, com a revisão final de Anderson Félix).

Um trabalho de equipe, portanto.

A edição recuperada veio à lume em maio de 2018.

E, como é natural esperar dos estudiosos espíritas o zelo doutrinário e o propósito de analisar, criteriosamente, com lógica e bom senso, marcas indeléveis de Allan Kardec, tudo o que for produzido em nome do Espiritismo e, também, tudo o que tenha origem na Mediunidade, recomenda-se a cada espírita, de per si, que analise comparativamente as edições, a de 1868 e a de 1872, da obra “A Gênese”, para perceber que a primeira contém os caracteres que identificam a grandeza da missão de Rivail à frente da chamada “Revolução Espírita” e que a segunda parece ser um rascunho mal acabado, com a necessidade de introduzir conceitos e expressões que não guardam consonância nem com o conjunto desta obra, nem com as demais de produção do Professor francês, em associação com os Espíritos Superiores.

Quem estudar e comparar verá a veracidade dessa afirmação e não ficará deglutindo o “prato feito” das conformações e da submissão às “autoridades oficiais”.

Clique na Imagem e venha para o Grupo Espiritismo Com Kardec, no facebook
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2 Replies to “Qual GÊNESE é de Kardec?”

  1. Muito bom seu conteúdo! Confesso que faz pouco tempo que despertei para o entendimento ao espiritismo. Está me fazendo muito bem. Acredito que devermos estar preparados para este momento. Eu, hoje, percebo que estava. Muito obrigada.

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