Sem Limite, a Data!

A “arte de ser sábio é a nossa capacidade de saber o que ignorar”.


Willian James (1842-1910).

As reuniões espíritas não são assembleias de feiticeiros e de necromantes, nem seus médiuns são adivinhos. Elas têm “o caráter essencialmente moral e grave”, as quais constituem o “espiritismo sério”; assim, “a doutrina escrita para toda gente, protesta suficientemente contra os abusos de todo gênero para que a calúnia recaia sobre quem a merece”.


Allan Kardec, O Céu e o Inferno, Cap. XI, item 9.

Todos os que militam nas ambiências espíritas, no Brasil

E nos países em que a Doutrina dos Espíritos tem adeptos e simpatizantes, já ouviram falar por certo na “Data Limite de Chico Xavier”.

Caso, no entanto, haja, entre os leitores desta missiva os que ainda não tomaram contato com esta expressão, é a oportunidade perfeita para conhecerem e aproveitarem o ensejo para se aprofundarem no legítimo conhecimento que a Doutrina dos Espíritos, a partir de 1857, legou à Humanidade deste planeta.

Inicialmente é preciso voltar um pouco no tempo.

Mais precisamente a 1971, quando do célebre programa Pinga Fogo (na extinta TV Tupi, Canal 4, de São Paulo). O programa existiu de 1955 até o início da década de 1980.

Em 28 de julho de 1971, em cadeia nacional, o médium mineiro Francisco de Paula Cândido Xavier foi entrevistado, ao vivo, por cerca de três horas de duração, alcançando a maior audiência da história da TV brasileira, com 75% dos televisores brasileiros ligados ao programa.

Depois, em 21 de dezembro do mesmo ano, o programa foi novamente realizado, com outras perguntas e, também, ao vivo, desta vez com duração superior a quatro horas, com audiência estimada de 20 milhões de brasileiros. Diversos jornalistas foram os entrevistadores, entre os quais o Professor Herculano Pires, filósofo  e uma das maiores autoridades do Espiritismo.

No Programa

Chico respondeu sobre inúmeros assuntos, como espiritismo, mediunidade, caridade, sexo, pena de morte, aborto, chegada do homem à Lua, transplantes de órgãos, bebê de proveta, homossexualidade, cremação, futuro da Humanidade, entre outros.

Os dois programas foram gravados e reproduzidos, sendo facilmente encontrados, atualmente, nos sites de busca, ou podem ser visualizados nos links informados ao final deste artigo.

Este episódio marcou a história do Espiritismo em nosso país e pode ser considerado como importantíssimo para a popularização das ideias espíritas, somando-se às tiragens dos 468 livros psicografados por Chico Xavier, totalizando mais de 50 milhões de exemplares, nos seus 75 anos de atividade mediúnica.

Chico Xavier Durante o Programa Pinga Fogo

No início desta década (2010), no entanto, a participação de Xavier em tal programa voltou à baila, para embasar o lançamento, em 2012, de uma obra assinada conjuntamente por Marlene Nobre e Geraldo Lemos Neto, intitulada “Não será em 2012”, cujo subtítulo é “Chico Xavier revela a data limite de um novo mundo”. Este livro teve grande repercussão no movimento brasileiro, levando à edição de um documentário chamado “Data Limite segundo Chico Xavier”. O vídeo contém narração “apoteótica e apocalíptica” e apresenta vários depoimentos de personalidades espíritas ou ligadas a temas transcendentais, como a Ufologia.

Capa do Livro Não Será em 2012

Antes de tratarmos de algumas questões que figuram no documentário, vale cogitar acerca do nosso papel, individual e coletivo em relação à Doutrina dos Espíritos.

É a oportunidade para a reflexão de todos, no sentido de aferir se não estamos convertendo essa maravilhosa e profunda filosofia, extremamente racional, decorrente de análises científicas e lógicas da mediunidade, para assumir, em contrário, matizes dogmáticos e de insensatez.

O que poderia ser, a proposta espírita, para os dias atuais, se ela estivesse solidamente apoiada em fatos e totalmente desvinculada de mitologias, fábulas e expressões que não se encontram apoiadas na acurada e profunda reflexão e na investigação fenomenológica.

Infelizmente não é esse o “Espiritismo” que identificamos nos dias atuais, e sim um que adultera e ultraja o pensamento originário de Kardec.

O documentário gira em torno de “revelações” ou “profecias” atribuídas a Chico Xavier.

Vale lembrar que o Codificador apresentou um conceito estrito e embasado para o termo “revelação”, no sentido da validação dos conhecimentos obtidos a partir de diálogos mediúnicos, prefixando como critério inafastável o da concordância entre os ensinos dados pelos Espíritos (CUEE).

Perfilou, ainda, princípios fundamentais, decorrentes das próprias Leis Universais, Divinas e Imutáveis, sobre os quais se fundariam todas as informações mediúnicas, afastando, portanto, de plano, o que fosse conflitante ou contraditório.

Recorde-se, em especial, que as “profecias”, tema, aliás, presente em praticamente todas as religiões do passado e do presente, para enquadrar as “revelações” da Lei de Deus, por meio de determinados homens – entre os quais se considera Moisés, João Batista e Jesus de Nazaré – foi suficientemente abordado por Kardec em “O Evangelho segundo o Espiritismo” (sobretudo nos capítulos I, VII, XV, XVIII, XXI, XXIV) e na “Revue Spirite” (anos de 1859, 1860, 1861, 1863, 1864, 1865, 1867, 1868 e 1869).

Portanto, com bastante amplitude e recorrência.

Já a ideia de “revelação” – inclusive com a necessária distinção entre a contida no conteúdo espírita e a presente em outras épocas da Humanidade, sobretudo as que provavelmente foram apropriadas no Antigo e no Novo Testamentos.

No que concerne a este último, considerando o conjunto dos versículos que compõem os quatro evangelhos canônicos, vale recordar que o Espiritismo não “reconhece” nem “valida” o conjunto integral, mas somente aqueles que têm concordância com os ensinos dos Espíritos Superiores (como aliás, Kardec expressa no subtítulo de “O Evangelho”).

Assim sendo, os ensinos, as realizações e a própria Pedagogia de Jesus constam, na obra espírita, nos livros “O Evangelho”, “O Céu e o Inferno” e “A Gênese” (edição restaurada).

Recomendamos, em especial, o capítulo I, desta última, intitulado “Caracteres da revelação espírita”.

Voltando ao documentário, afirma-se que o médium teria, em “conversas reservadas” (?), de “modo particular ou íntimo” (?) ou em “sessões fechadas” (?), confidenciado aos autores do precitado livro (Marlene e Geraldo) e que estes, após a desencarnação daquele (30 de junho de 2002), estariam na “obrigação moral” de torna-las públicas.

O contexto, assim, foi o de considerar como verdadeiras e irrefutáveis as afirmações de Chico, sem contesta-las ou submete-las ao crivo da razão e à comparação com os fundamentos do Espiritismo.

O vaticínio de Chico Xavier

Assim previa, segundo esses dois autores, uma série de informações incontestáveis acerca do “futuro da Humanidade e do planeta”. E, a partir daí, consolidar a divulgação destas “teorias” atribuídas ao mineiro em larga escala, para que se associasse o teor ou conteúdo delas ao chamado conhecimento da Doutrina codificada por Allan Kardec (1857-1869).

Este é o primeiro equívoco da proposta “data limite”.

Afinal, o Espiritismo para ser considerado e reconhecido como uma disciplina científica que aborda, investiga e explica as questões alusivas ao ESPÍRITO, passa longe disso, que é, ao contrário de simplesmente validar a informação em função seja da origem (médium ou Espírito comunicante), seja do conteúdo (“profecia”), analisar criteriosamente aquilo que a “profecia” vaticinava, previamente, em cotejo com a realidade que ocorreria depois.

E, em caso desta não ser materializada (“não se cumprir”), afasta-la de pronto, como, aliás, se deve fazer com toda e qualquer produção de natureza mediúnica, quando desprovida de racionalidade, lógica e bom senso.

Esta, assim, deveria ser a posição factual dos espíritas, diante de qualquer “profecia” ou “vaticínio”.

Mas não foi o que ocorreu, optando-se, do contrário, pela aceitação tácita da “verdade” chicoxavieriana – admitindo-se a premissa de que, realmente, ele assim teria se expressado – seguindo-se a divulgação, entre os espíritas e simpatizantes como “artigo de fé” e sem esperar que a mesma se cumprisse (ou não). Desaparece, aí, todo o espírito de investigação proposto pela Doutrina dos Espíritos.

No mérito (conteúdo), as informações dão conta de que, em 20 de julho de 2019, por tal “previsão”, a Humanidade iria, caso não ocorrida a terceira grande guerra mundial, iniciar um processo de transição (para a Era de Regeneração), a qual se completaria em 2057.

Para tal percurso, se cogita de uma série de eventos entre povos e países para alcançar, enfim, esta “meta regenerativa planetária”.

O livro consagra, então, as “profecias” dos Maias, segundo o calendário que este povo idealizou. Mas a data destes seria 22.12.2012. Os autores do livro citado de início, então, aproveitam para apontar sua discordância em relação à prefixação cronológica e a projetaram para 2019, no dia e mês em que se celebra o cinquentenário da estada do homem na Lua (1969), como o “ponto final do velho mundo” (página 18).

Homem na Lua

Ao não descartar a profecia Maia, os citados embasam seu conhecimento na mitologia religiosa daquele povo, “aproveitando” para corrigir a data apontada por aqueles. E por que não 2012? Os próprios autores citam Xavier que teria dito que 2019 seria o “ano da grande abominação” (página 18). Não é 2012, mas 2019, porque… Chico disse!

Totalmente alijado, este raciocínio, do legítimo pensamento espiritista!

O médium teria relatado que entre 1938 e 1939 – ano da publicação de dois livros psicografados por ele, o primeiro ditado por Emmanuel, “A Caminho da Luz”, e o segundo, por Humberto de Campos (Irmão X), “Brasil, coração do mundo, pátria do evangelho” – seria prevista uma “reunião” das “potências angélicas do Sistema Solar”, nas “cercanias da Terra”, para avaliar o avanço moral da sociedade terrena. Esta reunião teria sido realizada em 20.07.1969, no momento da chegada do homem à Lua, quando afirmou Neil Armstrong, o primeiro astronauta a colocar os pés no satélite natural terreno: “Este é um pequeno passo para um homem e um salto gigantesco para a Humanidade”. Neste momento, teria sido estabelecido um “prazo” para que a população da Terra se preparasse, sem a eclosão da terceira guerra mundial, em 50 anos, quando se iniciaria o período regenerativo do orbe.

Geraldo prossegue, ao ser perguntado se a dita reunião dos “Espíritos tidos como potências celestes do planeta” havia decidido algo mais, quando responde: “a partir de 2000, espíritos empedernidos no mal e na ignorância não mais receberão a permissão de encarnar na Terra. E os que aqui nascerem, estarão recebendo um valioso e justo prêmio, destinado a espíritos mais fortes e preparados” (página 56, grifamos).

As duas expressões relativas aos desencarnados que teriam, hipoteticamente, se reunido, são eivadas de um extremo rebuscamento, típico do misticismo, e das religiões míticas e dogmáticas, contidas no livro e no documentário, nada têm a ver com a proposta espiritista. Kardec, a propósito, sempre usou da simplicidade ao mencionar “Espíritos Superiores” ou “Inteligências Superiores”.

Nenhuma alegoria, portanto.

E as ideias fundadas em extremo religiosismo, como “empedernidos”, “permissão”, “valiosos e justo prêmio”, “mais fortes e preparados”, não estão em nenhuma conformidade com a Filosofia Espírita, que trata as questões com naturalidade, sob o império das leis eternas e imutáveis derivadas de um Pai, Criador, Soberanamente Justo e Bom!

Pela “revelação” geraldina-chicoxavieriana (porquanto não se pode reputar a um, isoladamente, ou ao outro, em face da única fonte ter sido o diálogo entre ambos, e isto é definitivo e decisivo em relação à possível consideração, ou não, destas afirmações, segundo os critérios lógico-racionais estabelecidos por Kardec, o que reforça a nossa ideia de afastamento completo da mesma), “todos os Espíritos recalcitrantes no mal seriam, forçosamente, encaminhados a reencarnar em mundos mais atrasados” (de provas/expiações ou primitivos), vivenciando, assim, o “estágio dos homens das cavernas”, para “purgar suas faltas e sua insubmissão aos desígnios superiores” (página 57).

Geraldo ainda arremata dizendo que teria sido informado ao médium quais seriam os mundos que receberiam tais individualidades espirituais e que o maior deles seria Kiron (Quiron).

Ora, senhores

Se já nos encontramos na metade do ano de 2019, e que, portanto, a “marca” já consta dezenove anos, que análise podemos fazer em relação aos jovens do nosso tempo?

Como são e  se comportam os adolescentes – até a idade de 19 anos – que estão ao nosso derredor, à luz desta “profecia”?

Não teriam – todos eles – que demonstrar aptidões, capacidades, caracteres e elementos demonstrativos da fala acima mencionada?

Uma evolução espiritual, intelecto-moral, destacada, que afastasse completamente os cenários de violência extrema e outras deformações de caráter que visualizamos todos os dias?

Qualquer debruce sobre a estrutura social do nosso tempo, em qualquer país, do mais ao menos econômica e politicamente desenvolvido, irá, por mínimo bom senso, afastar esta despropositada premissa atribuída ao doce e Cândido médium.

Ou, por outro lado, seria de bom alvitre que pessoas que se assumem como espíritas, honrassem o trabalho pioneiro e o conjunto da filosofia trazida por Kardec, para afastar a divulgação, “em nome do Espiritismo”, de ideias que não se sustentam em relação ao próprio ambiente planetário, que dirá em função dos fundamentos da Doutrina Espírita. A realidade visível do cotidiano confronta e contraria frontalmente a “previsão” em tela. Isto por si só já seria suficiente para afastar, de pronto, o teor de validade destas “profecias”.

O fato é que as ideias veiculadas nesta obra e replicadas, com a riqueza de efeitos especiais no documentário, repercutem e reverberam entre os espíritas – e não somente entre esses, mas alcançam espiritualistas de várias vertentes e, até, os curiosos. Tanto que o vídeo já alcançou a marca de 7 milhões de visualizações.

O vídeo traz, outrossim, uma afirmação bombástica e, infelizmente, muito distante da Doutrina dos Espíritos, quando expressa: “todas as religiões do mundo apontam para um momento único no futuro da Humanidade, no qual a realidade será drasticamente transformada por um evento singular, o qual dará início a uma nova era existencial para todos os seres que compartilham o planeta Terra.

Será um momento onde a Humanidade encontrará suas origens e descobrirá seu papel no Universo a que pertence” (destaques nossos).

Um ufanismo e um predeterminismo que estão a anos-luz de distância da interpretação espírita da Lei do Progresso e das relações entre indivíduos e sociedades, à luz do Espiritismo.

Ao afirmar peremptoriamente – veja-se a esse respeito o próprio título do documentário, “data limite” – para um evento singular, um evento em particular, ou um dado momento (20.07.2019), e não para um “período de adaptação” ou um “prazo para ocorrer dada ou tal transformação”, trata-se, singular e negativamente (para a Filosofia Espírita e para os estudiosos espíritas) um VATICÍNIO APOCALÍPTICO.

Neste contexto, parecemos enxergar, novamente, o mesmo caráter amedrontador e a linguagem carregada de sentimentalismo voltado à tríade “culpa-medo-salvação”, porque somos culpados em não termos podido, até agora, alcançar a “era de regeneração”, como se houvesse um “tempo preciso” para que isto ocorresse, e não fosse, tal, decorrente do esforço de cada um de per si e do conjunto, como sói acontecer em todos os mundos habitados por este Universo infinito.

E que devemos ter medo, porque talvez não sejamos aqueles que deveremos permanecer na “Terra regenerada”, sendo expurgados para viver em “planos inferiores” (e o quanto isso aterroriza muitos “trabalhadores” espíritas!).

Salvação, porque virão “seres iluminados” para “ditar o ritmo da Terra”, nos salvando de nossas “próprias iniquidades”. Tal linguagem é a mesma utilizada na Bíblia, no Antigo e, até, no Novo Testamento, apresentando-nos um Deus vingativo, poderoso, que pode alterar, a qualquer momento, o curso progressivo das Humanidades e dos Planetas…

Note-se que a construção do documentário conduz a uma pretensa validade desta informação, acima, porquanto trata de outros temas, como o dos transplantes, aproveitando-se da manifestação de Xavier no precitado programa de 1971.

Enquadrando, na resposta, a questão da então rejeição física aos órgãos transplantados, situação que os progressos científicos reduziram drástica e felizmente, Chico menciona que seria importante aperfeiçoar instrumentos de plástico para permitirem a sobrevida.

Então, muitos espíritas desavisados ou apressados, concluem que o mineiro teria “previsto” ou “profetizado” o “coração de plástico” ou outros órgãos feitos em laboratório.

O fato é que dois anos antes, em 1969, nos Estados Unidos, uma prótese de plástico, idêntica à morfologia do coração teria sido colocada em um paciente, por três dias, até que o coração humano, de outro indivíduo, chegasse ao local com a necessária compatibilidade para o transplante definitivo.

O médico Danton Cooley, assim, valeu-se do invento de um médico argentino, da Universidade de Boston (EUA), Domingo Santo Liotta, para tal experiência de sucesso.

Outra questão, relativa às viagens espaciais, também vislumbrou a possibilidade de descoberta de água em solo lunar, questão que o progresso das pesquisas e experimentos astronáuticos vem confirmando. 

Em ambas as situações o querido médium não “previu” nenhuma “descoberta” científica, nem “vaticinou” acerca do desenvolvimento de novos experimentos ou invenções, mas tratou de questões que já eram públicas e conhecidas, relatando experimentos anteriores, reconhecendo a inteligência humana como partícipe da obra divina.

Chico, então, jamais “antecipou” a Ciência, por sua atividade mediúnica. Suas falas, em especial a que roga que os cientistas continuem pesquisando alternativas para o prolongamento da vida humana sobre o planeta, nos casos dos transplantados, enquadram a mera opinião do Cândido em relação ao que ele considerava ser possível de ocorrer no futuro, longe de ser qualquer “previsão mediúnica”.

Mas não é o que os autores do documentário objetivam ao “vincular” a ideia da “data limite” às duas situações acima expressas, reproduzindo, inclusive, a fala do médium nos citados programas.

Vale dizer, também, que estudiosos e interessados em várias áreas do conhecimento humano, podem projetar ou, até, antecipar realizações ou conquistas científicas, a partir dos experimentos, inventos, objetos ou procedimentos já reconhecidos e divulgados. E isto não nos faz, em nenhum momento ou acepção, dotados do “dom de profecia”.

Entendemos, outrossim, que o vídeo é alarmante no sentido que que, a partir de julho de 2019 (exatamente o momento em que escrevemos este texto), haveria significativos avanços no campo das ciências, da medicina, e do bem-estar público.

Inclusive, remontando ao divulgado neste material, que tal se dará em face de contatos com inteligências extraterrestres, os ETs. Para o vídeo, os ETs seriam responsáveis por trazer “benesses celestes”, que iriam propiciar o alcance, por parte dos terráqueos, de “recursos e conhecimentos mais adiantados dos que atualmente experimentamos e temos ciência”. Conclui-se de que a “data” irá fazer com que o planeta adentre numa “era de progresso até então inimaginável”.

Estas afirmações, além de ufanistas e proselitistas, porque decorrem de um suposto e alegado evento espiritual e sob o filtro da mediunidade do Chico, são expressões muito comuns em religiões de vários matizes. Assemelham-se ao “juízo final”, quando afirmam que Espíritos “recalcitrantes no mal” são “expurgados” e dão lugar a “seres mais evoluídos”.

Na verdade, interpretando-se o contido na terceira parte de “O livro dos espíritos”, no que tange às Leis Morais e, mais especificamente, à Lei do Progresso, a transformação (dos homens e do planeta como um todo) JÁ VEM OCORRENDO desde que o plano foi criado.

A senda é progressiva, ascendente, direcionada para a frente e, portanto, cada dia novo que nasce é uma oportunidade “nova” para que pessoas e coletividades aproveitem os recursos disponíveis, utilizando-os para o seu próprio aprendizado e para o “bem-estar” dos demais humanos.

Há como “pano de fundo” de toda a proposta – seja a do livro, seja a do documentário, as quais convergem para a ideia de “data limite” ou de “início de um novo período planetário” – o “contato com Extraterrestres (ETs)”.

Esta seria, na visão dos autores, a “força-motriz” da transformação da Terra, colocando, assim, todos os atuais habitantes do planeta como “meros expectadores” ou, talvez, no máximo, como “coadjuvantes do processo” (que já está “definido espiritualmente”, cabendo aos terrenos, apenas, acatar o mesmo. Somos, assim, nós que estamos temporariamente nesta Terra de provas e expiações, “receptores da boa ação dos ETs”.

E, além de “crerem” nisso, os seus signatários ainda “ameaçam”: “Nada será como antes quando se der o contato com essa realidade – a dos habitantes de outros mundos em visita à Terra – porque isso é EXATAMENTE o que vai acontecer”. Ouvindo ou lendo isso só podemos concluir que nós, terrenos, somos “meros títeres” nas mãos de nossos “salvadores”. Talvez devamos dizer, como comumente se faz nas instituições espíritas: – Que assim seja! Não é?

Mas não fica apenas nisso.

Os intérpretes de Chico (!) ainda informam que isto ocorrerá em 2019, mas poderá ser concedida uma dilação de prazo de 10-20 anos, uma espécie de “desconto” para que a “profecia” se cumpra. Isto só pode ser uma brincadeira! E de mal gosto. Ou seja, como, estando, nós, na “data” aprazada ou após ela (dependendo do momento em que você, leitor, esteja acessando este nosso texto), “nada mudou”, “nada ocorreu”, “nada aconteceu”. Os ETs não vieram, o curso dos rios e oceanos continua o mesmo, o clima continua com suas características, os problemas ambientais são notados, os diálogos entre dirigentes de nações continua a ocorrer, todos vamos diariamente para o trabalho, convivemos com amigos e familiares e, até, lembrando a música de Stevie Wonder, “não foi preciso nenhum fato extraordinário. Só liguei pra dizer eu te amo!”.

Mas os que “concordam” com a “data limite”, ao verem que “nada mudou”, vão usar esta última afirmação: foi dado um “desconto” de mais 10-20 anos. Vamos aguardar um pouco mais!

Francamente…

Portanto, pela “tese da data limite”, há uma sequência (ilógica):

  1. Concessão pela “espiritualidade” de uma moratória de 50 anos (1969-2019);
  2. Neste prazo, não poderia ter ocorrido – e não ocorreu – um terceiro conflito bélico de proporções mundiais, a Terceira Guerra;
  3. Haverá uma “série” de contatos com ETs;
  4. Os ETs ofertarão gratuitamente aos terráqueos (nós) um manancial de conhecimentos e de progressos; e, finalmente,
  5. A Era de Regeneração da Humanidade terá se iniciado.

Pois esta fábula penetrou de tal modo entre os espíritas – e não, apenas, entre eles, mas envolvendo outros indivíduos espiritualistas que se interessam pela temática ou, até, são simpatizantes da Filosofia Espírita, incluindo-se, aí, os que têm afinidade com a obra literária de Chico Xavier – que gerou um sem número de textos, artigos, palestras e, até, eventos, assim como blogs, sites, grupos em redes sociais, dos que “aguardam a data limite”. Tudo bem distante da lógica racional daquele professor francês, em contato com as “revelações” dos Espíritos.

Ficamos, nós, pensando o que é que o Espírito Chico Xavier estará pensando ao ver tudo isto, produzido e acalentado em referência (!) a ele… E o que tem sido feito em relação à sua memória, sua imagem, suas palavras e sua vasta obra mediúnica… Chico, apesar de ter um “coração” imenso e um amor igualmente infinito pela Humanidade, deve se entristecer ao ver o seu nome ligado a tanto misticismo, fantasia e afirmações distantes daquilo que pretende a Doutrina Espírita, que ele conheceu.

De outra sorte, relembrando o célebre filósofo espírita León Denis, quando afirmou que os espíritas estudiosos e devotados deveriam assumir o papel de protagonistas em relação ao Espiritismo, no colóquio lógico-racional com as inteligências invisíveis, devemos lamentar profundamente o caráter místico e religioso, assaz dogmático, do movimento espírita majoritário, no Brasil e nos países em que o “modelo brasileiro” fincou raízes e foi adotado, sob a influência do nosso “movimento”, diante da afirmação Denista: “o Espiritismo será o que dele fizerem os espíritas”.

Já passou o tempo de nos indignarmos em relação a isto e de propugnarmos e construirmos um ESPIRITISMO com base legítima, kardeciana, afastando-o de sortilégios e previsões apocalípticas (como esta, a da “data limite”), assim como de práticas e prédicas outras, de notório misticismo, mistificação e mitificação de Espíritos (desencarnados) ou de humanos (tidos como “representantes” do Espiritismo).

Precisamos nos posicionar em relação ao que estão fazendo pessoas, grupos ou instituições espíritas, caracterizando situações que só contribuem – e fortemente – para o completo descrédito do adjetivo “espírita” e do substantivo “Espiritismo”, porque associados a práticas, teorias e comportamentos totalmente distantes da lógica, da racionalidade, do bom senso, do critério filosófico-científico contido na Doutrina dos Espíritos, consagrado e consolidado nas 32 obras de Allan Kardec.

Conclusivamente, em relação à “data limite”, com a fundamentação estrita na Doutrina dos Espíritos, é possível pontuar:

  1. O Espiritismo reconhece as relações entre espírito e matéria, ou entre os desencarnados e os encarnados por meio da mediunidade;
  2. A apresentação de informações, em tese originadas de colóquios com desencarnados, deve se submeter aos critérios de observação e validação estabelecidos por Allan Kardec;
  3. A opinião de UM espírito acha-se submetida ao princípio da concordância universal entre os espíritos, somente podendo ser tomado como um ENSINO, se for repetido por vários médiuns em locais diferentes ou em tempos (momentos) distintos, sem que haja o prévio conhecimento acerca da informação entre eles;
  4. Por mais importante tenha sido a contribuição do médium Francisco de Paula Cândido (Chico) Xavier para a popularização do Espiritismo, as suas ideias, pessoais, mesmo que ele tenha se referido a contatos mediúnicos com inteligências desencarnadas, assim como o fato dele ter sido um exemplar raro dentro da Humanidade, em termos de vivência de virtudes e devotamento ao próximo, com sua permanente abnegação e altruísmo, não passam de opiniões e devem ser consideradas como tal, não merecendo qualquer importância adicional, seja por ser fruto de sua atuação como médium, seja por representar a condição de liberdade de expressão (pessoal) ou por ter sido, ele, um expoente da mediunidade ligada ao movimento espírita;
  5. Deve-se ter muita cautela, também, em relação a terceiros que se referem ao médium, sejam os citados neste ensaio, sejam outros, acerca de relatarem diálogos ou transcreverem falas, atribuindo-as ao médium, em absoluto respeito à sua pessoa (Espírito), sua obra, seu legado e sua memória;
  6. Não se destina, o Espiritismo, na presença e na orientação dos verdadeiros Espíritos Superiores – seja os que se manifestaram ao tempo de Kardec, seja o dos nossos tempos – para fazer previsões, predições, revelações, profecias ou similares, acerca do futuro da Humanidade ou do Planeta;
  7. O progresso (individual e coletivo, social, por consequência) não é obra dos entes desencarnados, mas dos encarnados que assumem sua responsabilidade, pessoal e conjuntural, em relação ao planeta em que estamos vivendo na presente encarnação;
  8. A obra de transformação moral, intelectual e física do planeta Terra, assim como dos demais Mundos Habitados, dentro da didática espírita, não decorre nem pode decorrer da atuação de humanidades de outros planetas, em “visita” ou “colonização” da Terra, já que cada ser acha-se vinculado ao plano em que se encontra encarnado;
  9. Não é objeto do Espiritismo a “investigação” sobre eventos de paranormalidade estudados por outras filosofias ou ciências, nem a análise sobre a eventual presença de extraterrestres no solo planetário. Caso eventos desta natureza sejam verificados, a Filosofia Espírita poderá contribuir para o entendimento destas questões, desde que elas sejam correlacionadas a temas de natureza espiritual-espírita; e,
  10. A contribuição no sentido de cooperação e vinculação psíquica (mediunidade), ocorre desde sempre e está calcada no axioma espírita de que os Espíritos (desencarnados) influem em nossos pensamentos e atos muito mais do que possamos supor, conforme a interpretação à resposta dada pelos Espíritos Superiores a Kardec no item 459, de “O livro dos Espíritos”. Neste sentido, inteligências mais adiantadas estão sempre interessadas em fazer progredir a Humanidade Terrena e participam disto, diariamente, intuindo e orientando cientistas, pesquisadores, docentes, membros de instituições de caráter humanitário e dirigentes de instituições públicas e privadas.

Derradeiramente, diante deste “fato” – a “data limite” e tantos outros que existem e que continuarão existindo em face dos que (ainda) não compreendem a extensão, a seriedade e a natureza do Espiritismo –, possamos, com raciocínio e bom senso calibrar bem as nossas bússolas kardequianas, fazendo emergir de nós mesmos, nossos pensamentos, palavras e atos, o conteúdo fidedigno das Leis Naturais (Leis Espirituais ou Leis Morais, conforme a terceira parte de “O livro dos espíritos”, de maneira a vivenciarmos cada uma delas e não nos deixarmos desarmonizar por “ideias menores”.

(*) Colaboraram Kátia Pelli, Edson Figueiredo de Abreu e Marco Antônio de Pádua Borges.

Referências:

1) Vídeo Data Limite:

2) Notícia sobre o transplante em 1969:

https://www1.folha.uol.com.br/banco-de-dados/2019/04/1969-em-cirurgia-inedita-coracao-de-paciente-e-trocado-por-peca-artificial.shtml

3) Programa Pinga Fogo com Chico Xavier – 28.07.1971:

4) Programa Pinga Fogo com Chico Xavier – 21.12.1971:


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