Um Seis de Janeiro Muito Especial

O Espiritismo

[…] terá, sobretudo no começo, que lutar contra as ideias pessoais, sempre absolutas, tenazes, lentas a se ligar às ideias de outrem, e contra a ambição dos que, a despeito de tudo, querem ligar seu nome a uma inovação qualquer; que criam novidades unicamente para poder dizer que não pensam e não fazem como os outros; ou porque o seu amor próprio sofre por só ocuparem um lugar secundário; ou, enfim, que veem com despeito um outro fazer o que não fizeram e, além disso, triunfar”.

Allan Kardec, Revue Spirite, Dezembro, 1868, Constituição Transitória do Espiritismo, Item III – Dos Cismas, nossas as marcações.

Revista Espírita

Revista Espírita

Todo estudioso espírita tem o dever de bem conhecer a obra completa de Allan Kardec.

Há uma “simplificação” indevida, que grassa nas instituições espíritas brasileiras, que fraciona a vasta produção bibliográfica do Codificador – em parceria de sucesso com as Inteligências Superiores, desencarnadas, nem todas nominadas (identificadas) – que consiste em trinta e duas obras da lavra daquele professor francês(consulte a lista mais atualizada aqui).

Costuma-se dizer, entre os espíritas, que há “obras básicas” ou “obras fundamentais”, das quais, em verdade, se estuda muito pouco, digamos. Pode-se constatar que há grupos de estudo tradicionais em torno de “O livro dos espíritos” e grupos de estudo da mediunidade, utilizando-se de “O livro dos médiuns”, enquanto “O evangelho segundo o espiritismo” é utilizado para preparação (ambientação) de reuniões ou em palestras doutrinárias. Poucas são as instituições que realizam cursos regulares sobre as demais obras do Espiritismo e as que assim procedem raramente empreendem estudos sistêmicos, como, por exemplo, os que comparam afirmações contidas em várias obras e na Revue Spirite, com base num mesmo tema.

Nós, francamente, gostaríamos de encontrar outro cenário

Mas em termos de atividades espíritas, esta é a triste realidade.

Há muito “interesse” nas “novidades”, nas obras psicografadas pós-Kardec, mas não se conhece – nem de longe – o contexto originário da principiologia espírita, os chamados Fundamentos do Espiritismo, os quais se encontram, de fato, nos vários (e densos) livros de Kardec.

Como, acima, falamos, também, do laboratório de Kardec, a Revue, pode-se quantificar em torno de 90% os espíritas que jamais folhearam a mesma e a estudaram, seja em trechos, seja em conjunto. Doze volumes que, lamentavelmente, mesmo contendo uma riqueza incomensurável de informações, são deixadas de lado por serem, quem sabe, “antigos” e “defasados”, na visão dos “adeptos muito entusiasmados” do Espiritismo, feliz expressão que Herculano Pires se utilizou para designar aqueles que “acham” que os escritos de Kardec pertencem, apenas, ao contexto sócio-cultural do século XIX, e que os médiuns brasileiros – e seus guias – já disseram “mais” e “melhor” sobre os temas da atualidade planetária.

Voltando ao título deste ensaio, seis de janeiro é o dia de comemoração de mais um aniversário da última obra de Kardec:

“A Gênese – Os milagres e as predições segundo o Espiritismo”, considerada a obra “mais científica” do filósofo francês Rivail.

Lembremos que, em 2018, por ocasião do sesquicentenário do livro, após cuidadosa e exaustiva pesquisa, constatou-se que a quinta edição, publicada após a morte de Allan Kardec, no ano de 1872, em Paris, trazia uma série de alterações, divergindo, esta, nas quatro publicações anteriores, feitas, todas, pelo Codificador(leia mais sobre o lançamento da obra restaurada aqui).

Duzentas e oitenta e duas alterações, entre supressões, inclusões e inversões de textos foram perpetradas nos textos originais, levando à desfiguração da obra.

As pesquisas foram feitas presencialmente, utilizando-se de provas obtidas nos Arquivos Nacionais da França e na Biblioteca Nacional da França, realizadas por Simoni Privato Goidanich, cujo trabalho, exaustivo, encontra-se detalhado na obra “O Legado de Allan Kardec” (USE/CCDPE, São Paulo: 2018).

“O Legado de Allan Kardec” (USE/CCDPE, São Paulo: 2018)

“O Legado de Allan Kardec” (USE/CCDPE, São Paulo: 2018)

 

Os ataques à produção kardequiana já haviam, inclusive, sido objeto de advertência dos Orientadores Espirituais ao próprio Rivail, desde 1863, em especial na dissertação “A Guerra Surda”, publicada na Revue em dezembro deste ano, assinada pelo nobre Erasto.

Os adversários encarnados de Kardec

Dispostos na própria Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas encurralaram a viúva Amélie-Gabrielle Boudet e os que, esclarecidos, tentavam manter o legado do professor francês incólume ante as inflitrações de doutrinas estranhas, entre as quais o docetismo de J.-B. Roustaing (autor de “Os quatro evangelhos”), obra que diverge frontalmente do conteúdo espiritista, por defender um Jesus agênere, não-humano, não-encarnado, um ser de natureza fluídica, concebido a partir dos dogmas tradicionais das religiões cristãs, as quais estão consubstanciadas, também, nas adulterações instaladas sobre o conteúdo de “A Gênese”.

E é por isso que Boudet, apoiada por Berthe Froppo, Gabriel Delanne e León Denis, além de outros tantos – citando-se os trinta nomes que formaram a comissão central – resolveram fundar outra instituição, a União Espírita Francesa e empreender um novo periódico de difusão das ideias genuinamente kardecianas, o jornal “Le Spiritisme” (O Espiritismo), já que, após a edição de abril de 1869, a última que Kardec deixou em tipografia, a Revue Spirite começou, pouco a pouco, também, a ser desfigurada, com a inclusão de temas e abordagens espiritualistas e contrárias aos fundamentos espiritistas.

Não é demasiado frisar, também, que o próprio Espiritismo brasileiro possui, desde as primeiras décadas de organização em terras brasileiras, a “marca” indevida e negativa das ideias rustenistas, sendo, a própria Federação nacional subscritora e apoiadora da obra de Roustaing, como “complementar” a de Kardec, conforme documentos oficiais da entidade.

O estudioso espírita que se debruçasse sobre o texto da obra derradeira do Codificador realmente poderia estranhar muitos dos trechos nela consignados.

Mas, como o livro trazia o “carimbo” das editoras e instituições espíritas, assim como a quinta edição, em francês, consignava o “selo” da editora que publicou as demais produções literárias de Kardec, poucos foram os que se levantaram para apresentar as contradições. Mas elas estão lá, na edição em referência e, agora, quando se traz a lume e se publica a edição recuperada, os espíritas atentos, vigilantes e interessados, realizando estudos comparativos entre a verdadeira e a adulterada conseguem perceber, claramente, o alcance das diferenças e nas intromissões, de outra filosofia, de outras ideias, no contexto e conteúdo espírita.

No mesmo escopo comparativo, já por nós destacado, neste artigo, é possível a qualquer interessado perceber que, em relação às modificações realizadas na quinta edição, até então tida como definitiva e verdadeira pelos espíritas, é possível perceber que diversos conteúdos, mesmo desenvolvidos com pertinência e acuidade por Rivail, na Revue, que o fizeram demorar para publicar a primeira edição de “A Gênese” (1868), foram simplesmente suprimidos e modificados.

Prova inconteste do critério e da metodologia que foram grandes e indeléveis marcas do Codificador, no que se refere ao padrão e ao conteúdo, doutrinários. Isto sem falar de diversos trechos contendo notórios erros doutrinários, inclusive informações com conteúdo supersticioso.

Pode-se dizer, ainda, que o Codificador, por ser metódico, sistemático, organizado, racional, detalhista, tenaz, perspicaz, equilibrado, entre outras de suas virtudes, operou, em relação ao conjunto de sua obra, permanentemente, uma espécie de maiêutica espiritual, pois, à medida que os assuntos iam se desenvolvendo e que ocorria o aprofundamento dos temas, Kardec pensava em obras específicas que poderiam reunir as informações em diferentes contexturas, e voltava a tratar de temas iniciados e, em edições supervenientes – como se deu, por exemplo, com “O livro dos espíritos”, realizou revisões e ampliações dos mesmos.

Portanto, qualquer espírita sensato que se debruçar sobre o conteúdo completo das obras de Allan Kardec perceberá, em todos os livros e revistas, os elementos que caracterizaram o chamado “bom senso encarnado” – designação, aliás, dada pelo amigo Camille Flammarion, em discurso proferido no funeral de Rivail.

Descoberto, assim, o ESCÂNDALO (conforme preleciona “O evangelho segundo o espiritismo”, Capítulo 8, Itens 11 a 17) e considerando os graves e variados efeitos que foram produzidos, em todo este tempo, somente a difusão da edição recuperada, com a redação original de Kardec pode permitir à arvore que não seja ceifada mas que, com as “podas” necessárias, possa a mesma continuar a produzir bons frutos, a cem por um.

O trabalho foi iniciado com o resgate histórico-conjuntural, na pesquisa de farta documentação e das disposições administrativas e legais a respeito, vigentes na França do fim do século XIX. Prosseguiu, com distintas análises, no escopo conjuntural e sistêmico de distintas áreas do conhecimento humano (entre as quais História, Sociologia, Física, Astronomia e Direito) e prossegue com a realização de eventos de discussão da obra (e das alterações), grupos de estudo que estão comparando, entre si, as edições e pela publicação e divulgação da edição restaurada (“A Gênese: Os milagres e as predições segundo o espiritismo”, Allan Kardec. Tradução de Carlos de Brito Imbassahy. Guarulhos: FEAL, 2018). Tudo isso, envolvendo centenas de pessoas, dentro da premissa estabelecida pelo próprio Codificador, na Revue (Dezembro, 1868, Constituição Transitória do Espiritismo): “Se o Espiritismo não pode escapar às fraquezas humanas, com as quais sempre se há de contar, pode paralisar as suas consequências, e é o essencial” (sublinhamos).

E prosseguem as tarefas, agora debruçadas sobre um conjunto de documentos até então desconhecido do grande público espírita em geral, as “Cartas de Kardec”, documentos que foram confiados pelos continuadores da obra kardeciana ao brasileiro Canuto de Abreu e que, agora, por um gesto grandioso de seus descendentes, foi entregue para uma curadoria específica que está promovendo a recuperação física e a recuperação dos documentos, seguindo-se rigorosos procedimentos especializados, para que sejam traduzidos e disponibilizados a todo o movimento espírita, brasileiro e internacional.

Por isso, ombreamos com todos os que estejam paralisando as consequências danosas, até aqui, à memória do Codificador e ao conteúdo de sua obra, denunciando e laborando no resgate do texto original, legando às atuais e futuras gerações a recomposição do edifício espírita, sem desnaturação. A diretriz de todo o trabalho dos que a isso se afiliam, corresponde ao estudo e à defesa do patrimônio intelectual e cultural de Allan Kardec, remontando aos mesmos critérios de lógica e bom senso existentes na personalidade do educador de Lyon.

Allan Kardec

Allan Kardec

Finalizamos com as próprias palavras do Professor Rivail

Nossa referência e inspiração para todo e qualquer trabalho de índole e natureza espírita e espiritual: “Para assegurar a unidade no futuro, uma condição é indispensável: é que todas as partes do conjunto da doutrina estejam determinadas com previsão e clareza, sem nada deixar no vago; para isto procedemos de maneira que os nossos escritos não possam dar lugar a nenhuma interpretação contraditória, e procuraremos que seja sempre assim” (Allan Kardec, Revue Spirite, Dezembro, 1868, Constituição Transitória do Espiritismo, Item III – Dos Cismas, destaques nossos).

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