Você é um Espírita-Raiz?

Você é um Espírita-Raiz?

A juventude é uma fase maravilhosa da nossa existência física.

O vigor desta etapa permite um dinamismo incrível, capaz de produzir muita coisa boa, útil e importante para as transformações sociais.

O jovem é responsável por muitas mudanças de paradigmas, em vários dos campos dos relacionamentos humano-sociais.

Um desses exemplos da criatividade juvenil diz respeito à existência de uma diferenciação entre os padrões “raiz” e “nutella”.

A “tradução” mais comum para essa dicotomia apresenta o primeiro como a “essência”, a “verdade”, o “original”, o “autêntico”; já o segundo, se refere ao “popular”, ao “moderno”, ao “alterado”, ou, para usar um termo também da moda “gourmetizado”, isto é, cheio de acréscimos e inserções indevidas. Nas redes sociais é possível conhecer vários banners ou imagens, “memes” (postagens jocosas, engraçadas), até, em que se comparam pessoas do tipo “raiz” e as do tipo “nutella”.

Há, neles, uma valorização do primeiro, que simboliza o perfil mais adequado e coerente para profissões, habilidades, competências, perfis e jeitos de ser. Diríamos, até, que a criação deste comparativo foi inspirada na ideia da falsificação, da aparência, do parecer, que são contrárias à realidade, à essência e ao ser, de cada um. Como ficaria esta dualidade no campo da filosofia espírita?

Como seriam conceituados ou visualizados os espíritas de um ou de outro tipo?

Entendemos que o espírita-raiz é aquele que conhece, de fato e a fundo, a vasta obra (32 livros publicados por ele em vida e mais uma após a sua morte, “Obras Póstumas) e incessantemente continua a estudar, inclusive comparativamente, tudo aquilo que Allan Kardec legou à Humanidade, como produção literária sua, em concurso com os Espíritos que se manifestaram por meio de diversos médiuns, de várias partes do mundo, no Século XIX.

A produção kardequiana, como se sabe, durou de 1857 a 1869, ainda que, seus seguidores, tenham continuado com as atividades da instituição que ele fundou e dirigiu, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (SPEE) e tenham continuado, por mais algum tempo a editar e publicar o primeiro veículo de comunicação social espírita, a Revue Spirite (Revista Espírita), sem, é claro, o mesmo brilho e acuidade do Codificador.

Inclusive, com problemas de “conteúdo”, os quais fizeram com que pessoas fiéis ao “espírito kardeciano” se afastassem da SPEE e fundassem outros grupos e editassem um outro periódico, fiel, este, às origens e aos princípios espiritistas.

Só quem estuda sabe todos os percalços

Que o “movimento espírita” perpassou, ainda na França e, depois, no Brasil, tido como o maior país espírita do mundo, dada a profusão de adeptos e simpatizantes e o expressivo quantitativo de instituições com o adjetivo “espírita” que funcionam em nosso país, atualmente.

Os espíritas, assim, são muitos e diversificados, quando não se diz díspares, no que concerne à forma de “entendimento” dos fundamentos espíritas e a adoção (ou não) de comunicações espirituais posteriores ao trabalho de Kardec, sobretudo no Brasil, com a presença de muitos médiuns psicógrafos e a assinatura de muitos espíritos – tidos como “mentores” ou “guias espirituais” – os quais, infelizmente, são responsáveis pela introdução de teorias outras, distantes e até contrárias aos princípios e às explicações espirituais contidas nas obras que o professor francês legou ao mundo contemporâneo.

O espírita-raizEspirita-Raiz-Nutella

O espírita-raiz consegue perceber as “inserções”, as “diferenças”, as “teorias pessoais”, informadas por espíritos (geralmente, desencarnados) que têm visões particulares e bastante imperfeitas, ainda, sobre as questões deste e do “outro” mundo, ou seja, explicações que contradizem a teoria espírita original, em relação às situações do mundo físico (o dos encarnados) e do mundo espiritual (o dos desencarnados).

Estudar e comparar, sempre, aliás, foi a premissa adotada nos quase doze anos de profícuo trabalho daquele educador francês, em obediência às suas próprias convicções, seu bom senso, sua lógica e atendendo à premissa estabelecida pelo Espírito Erasto, que disse: “é preferível rejeitar dez verdades a aceitar uma só mentira”.

E quem seria o espírita-nutella?

O espírita-nutella é aquele “adepto por demais entusiasmado”, feliz expressão de outro expoente do pensamento espírita mundial, o brasileiro Herculano Pires, igualmente professor, como Kardec, e considerado o maior filósofo espírita de todos os tempos, com uma vasta obra que supera os oitenta livros publicados, sobre Espiritismo.

Herculano dizia da necessidade de, individual e pessoalmente, termos cautela em relação ao “universo” que se descortinaria a partir da leitura de obras, da atuação em grupos espíritas e dos diálogos travados com as inteligências invisíveis, para que não nos tornássemos ufanistas, e esse entusiasmo desmedido pudesse cegar nossas (ainda) imperfeitas pupilas.

E, em consequência, adotarmos o mesmo cuidado em relação aos outros, tidos ou ditos como espíritas, igualmente, consideradas as imperfeições humanas, tanto dos encarnados quanto dos desencarnados – posto que o fenômeno da morte física não transforma ninguém em sábio, tampouco a condição de estada no mundo espiritual permite, de pronto, que sejam feitas narrativas que correspondam à efetiva realidade dos fatos, sendo, no máximo, visões imperfeitas, parciais, limitadas à condição evolutiva de cada ser.

Isto significa que, por mais respeitável e honesto seja um médium que possamos conhecer, isto não significa que as suas produções mediúnicas (páginas, depois livros) sejam a correta descrição e explicação das questões que interessam aos espíritas e à Humanidade. O espírita-nutella adora os romances. Aquelas histórias romantizadas, por vezes, até, fantasiosas, em que personagens desfilam suas dores e dificuldades, buscando-se, sempre, como um folhetim, uma novela da televisão brasileira, um “final feliz”.

No contexto das estórias contidas em tais narrativas – alguns best-sellers – há uma série de informações, de condicionantes, de detalhes, de regras, atribuídas a “questões espirituais” que não subsistem minimamente ao cotejo com os elementos contidos na vasta obra do professor francês. Há incompatibilidade, mesmo! Há defeitos incorrigíveis…

Há a inserção de idéias que jamais foram ou são espíritas, algumas visíveis em outras filosofias espiritualistas e outras composições pessoais, individuais, de quem as escreve – seja o espírito, tido como autor das obras, seja o médium que é o intermediário, e, neste ponto, considerados os muitos “tipos” de mediunidade que são destacados de forma pedagógica e pontual por Kardec, no seu “manual de mediunidade”, a obra “O livro dos médiuns”, com maior ou menor interferência deste último, o médium, no resultado final, o livro.

O espírita-nutella está sempre ávido por novidades.

Está sempre querendo os últimos lançamentos deste ou daquele autor, que já conhece, ou de um “novo médium” que apareceu e já arrebata seus seguidores “fiéis”.

Vive comentando, nos corredores das instituições espíritas ou, agora, mais fortemente, nas redes sociais, sobre os “detalhes maravilhosos” do livro que leu ou está lendo, e que “explica direitinho” as coisas que o “ultrapassado” Kardec, um homem do século XIX (e já estamos nós no século XXI, dizem eles!) não pôde dizer, porque não faziam parte, essas questões, daquele cenário temporal.

É isso mesmo que você está lendo.Espirita-Raiz-Nutella

O velho professor francês, que morreu aos 65 anos de idade, está ULTRAPASSADO! Suas ideias – e suas obras – não resistiram ao curso do tempo e é preciso “atualizar” a obra.

Então, os nutellas dizem que o “médium da vez” ou o “guia do momento” está APONDO CONTRIBUIÇÕES IMPORTANTES para a Doutrina Espírita. E que não devemos ficar “presos” à obra kardeciana, como os crentes ficam à letra da Bíblia (Sagrada).

É preciso avançar, dizem eles.

E para que o “enredo” fique, ainda mais, factível e convincente, eles pegam alguns trechos – sim, da obra de Kardec! – para “alicerçar” essa teoria esdrúxula e descabida de que os médiuns brasileiros e os “seus” guias “de estimação”, estão “complementando e atualizando” Kardec!

Reportam-se por exemplo à afirmação kardeciana de que o Espiritismo deveria acompanhar, passo a passo, lado a lado, os progressos das ciências (humanas).

Que novas “revelações” – dando, assim, um caráter místico e religioso às comunicações mediúnicas, que são, do contrário, fatos naturais e comuns na conjuntura humana, atribuindo-lhes uma solenidade e uma “permissão divina” para as mensagens – estão sendo trazidas por espíritos “comprometidos” e “autorizados”, e que estes, tanto quanto os médiuns, são especiais e “diferentes” dos outros que, via de regra, se manifestam nas centenas de milhares de instituições espíritas de norte a sul do Brasil, e em várias partes do mundo em que há agremiações de espíritas que exercitam a comunicabilidade.

Ou seja, o chamado “movimento espírita” já “elegeu”, há muito tempo, seus médiuns e espíritos oficiais, embora alguns continuem “correndo por fora”, e amealhando adeptos, ainda que suas obras, francamente, sejam tudo, menos Espiritismo.

Sejam uma mistura “apimentada”, por vezes, entre os diversos sincretismos religiosos que grassam nesse maravilhoso, multicolorido, multifacetado e riquíssimo país do hemisfério sul.

Há, então, nestes livros “tidos como espíritas”, elementos de filosofias cristãs, esotéricas, orientais e um misto de elementos da própria formação étnico-cultural do povo brasileiro, dos índios, dos negros e dos europeus e suas crenças.

Esta “salada mista”

Espirita-Raiz-Nutella

Tem sido entendida, pelos nutellas, como “atualizações do pensamento de Kardec”. Santo Deus! Por Erasto! Valha-me Espírito Verdade!

Os nutellas estão por aí, dando consultas, palestras, explicações em redes sociais ou escrevendo seus textos e livros. Nada há de mal, francamente, nisto, dentro dos princípios constitucionais e sociais da liberdade de pensamento e de comunicação.

O problema – GRAVE – está no incorporar, associar, conceituar tudo isto que aí está como “espírita”, quando deveria ser, apenas, “espiritualista”.

Felizmente, têm aparecido muitos espíritas-raiz.

Eles acabam se encontrando, seja nas próprias instituições das cidades brasileiras (e de algumas outras, em distintos países), ou, mais fortemente, nos grupos das redes sociais, com destaque para o Facebook.

Aproximam-se por afinidade, pelo estudo, pelo raciocínio lógico, pelo bom senso, pela negação das “adulterações”, dos “acréscimos”, das “leviandades” que são ditas e escritas “em nome” do Espiritismo, e consumidas por milhares ou milhões de pessoas que não conhecem os fundamentos, porque jamais estudaram a fundo Kardec ou exerceram aquilo que ele mais fez durante o tempo em que laborou PELO Espiritismo, qual seja o exercício metódico, sistemático e permanente de COMPARAÇÃO entre as mensagens mediúnicas e entre as afirmações, verbais ou escritas, de pensadores do seu tempo. E você, o que é? Está mais para um espírita-raiz? Ou será que você é um espírita-nutella? Conheça-te a ti mesmo e seja mais um a valorizar a condição de espírita-raiz, conquista de quem estuda e se interessa pelo Espiritismo real, e não por aquilo que “dizem ser” Doutrina Espírita.

Natural do Rio de Janeiro (RJ) e radicado há muitos anos em Florianópolis (SC), Marcelo Henrique se tornou espírita em 1981, vindo do catolicismo. É Secretário Executivo da Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo (ABRADE) e presidente da Associação dos Divulgadores do Espiritismo de Santa Catarina (ADE-SC), assim como do Centro Cultural Espírita Herculano Pires, em São José (SC). Também é delegado da Confederação Espírita Pan-Americana (CEPA), associado da Associação Brasileira de Amigos e Delegados da CEPA (CEPA-Brasil), do Centro de Pesquisa e Documentação Espírita (CP-Doc) e da Associação de Estudos e Pesquisas Espíritas da Paraíba (ASSEPE). Atua, ainda, como representante da ABRADE, no Fórum das Entidades Especializadas de Âmbito Nacional, junto à Federação Espírita Brasileira. É Editor-Chefe da Revista Espírita HARMONIA, um periódico eletrônico e, como escritor e articulista, tem artigos e pesquisas em diversos sites, assim como é autor de “Túnel de Relacionamentos” (Ed. EME) e “Alteridade: a diferença que soma” (Ed. INEDE).

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