Yeshua Mashiach – Filho do Homem

Yeshua Mashiach – Filho do Homem
Por Beto Souza.

A tradução de nomes próprios é algo que sempre considerei desconfortável pelo estranhamento quando nos deparamos com os nomes originais e eles são diferentes dos que nos acostumamos desde a infância.

O fenômeno não é isolado, se repete por toda a parte num quebra cabeças de idiomas que dificulta a comunicação, mas aos poucos tem sido superado pelo fluxo livre de dados permitido na era digital.

Ficou mais fácil descobrirmos como uma determinada personalidade se referia a si mesma em seu idioma natal, como seu nome era pronunciado por seus contemporâneos e o quanto nossas construções idiomáticas modificam a possibilidade de entender as nuances poéticas do significado original de cada nome.

A personalidade mais importante no mundo ocidental, por quem o calendário foi divido em antes e depois do seu nome, é chamado “Iesous Khristós” nas terras onde se fala grego, foi traduzido como “Christus” pelos romanos e assim propagado nas línguas neolatinas.

É “Al-Masih” entre os vizinhos do crescente fértil que falam o árabe, cruzou as rotas comerciais chegando como “Jīdū” nas pradarias chinesas e “Kirisuto” nas ilhas japonesas. Partiu nas expedições inglesas como “Christ” e foi recebido nas costas africanas como “Kristi”. Entre estes e tantos outros nomes, é “Jesus Cristo” nas terras brasileiras.

Grafias e sonoridades distantes do dialeto hebraico falado nas povoações que existiam nas margens do rio Jordão de dois mil anos atrás. Naquela época dificilmente encontraríamos algum Jesus pelas ruas, pois ele era chamado entre os seus conterrâneos de “Yeshua ben Youssef”, que traduzindo para o nosso entendimento atual significa “Jesus filho de José”.

A construção do nome que conhecemos hoje passou pela tradução inicial

Do hebraico “Yeshua” para o grego “Iesous” nos textos canônicos de segunda geração, entre os anos 60 e 90 de nossa era. Foi mais tarde simplificado na tradução para o latim como “Iesus” no final do Século IV quando foi produzida a Bíblia denominada Vulgata, com a declaração do “Christianismus” religião oficial do império romano no ano 370, no reinado do imperador Teodósio I. Por fim, a assimilação da letra “J” trouxe para os idiomas neolatinos a conversão de nomes como “Iulius Caesar” em “Julius Cesar” e “Iesus Christus” em “Jesus Christus”, entre outros.

– Perdeu-se a poesia do nome original.

Quando Moisés pergunta a Deus qual seu nome, este responde “Eu sou o que sou” (Êxodo, 3:14), que em hebraico se pronuncia “Ehyeh asher ehyeh”, cuja contração “Eheieh” daria origem ao nome de Deus do tetragrammaton cabalístico, o “YEVE” depois convertido em Jeová.

O nome de Jesus em hebraico

Representa a união de Deus (YEVE) com o verbo salvar (IASHA) formando a aproximação “Yehoshua” da palavra simplificada “Yeshua”. O dito “verbo que se fez carne” na expressão “Deus Salva” como uma referência ao papel do profeta “Yeshua ben Youssef” como um messias.

Porém, o sentido de messias (Mashiach) era muito diferente do exclusivismo que consideramos atualmente. A história do povo hebreu foi marcada pela presença de diversos messias, ungidos, investidos por Deus para desempenhar papéis específicos na sociedade.

Reis eram ungidos para governar, sacerdotes para ministrar os cultos no templo e profetas para comunicar as mensagens do outro plano.

José, o intérprete dos sonhos, foi ungido no Egito quando salvou o povo da fome. David foi ungido quando unificou o território da terra prometida em seu reinado. Ciro, governante do Império Meso-Persa, foi ungido quando libertou o povo hebreu do cativeiro na Babilônia. Eram todos “Mashiach”.

Quando Jesus (Yeshua) recebe a unção após o batismo no rio Jordão, ele abandona as condições de sua vida até aquele momento.

O ritual realizado por João Batista com a submersão total na água simbolizava a encarnação no corpo humano composto em sua maior parcela deste elemento considerado arché pelos gregos. Ao emergir e respirar novamente o individuo estava simbolizando o recebimento de um novo sopro de vida. Deus soprou a vida no barro em que surgiu Adão, o primeiro homem, e da mesma forma este novo respirar significava receber um novo começo e assumir as obrigações sociais. No caso de Yeshua, o batismo simbolizava a unção aos olhos da cultura hebraica, o ato de assumir o manto como um dos Messias (Mashiach), cuja missão era ser um dos guias da humanidade no caminho da libertação espiritual.

O termo grego “Khristós”, que originou a tradução “Christus” latina e o moderno “Cristo” passou a ser utilizado apenas na época do apóstolo Paulo de Tarso, que se converteu por volta do ano 35 e logo depois partiu em suas jornadas divulgando a boa nova, que na época tinha por base a ressurreição de Jesus e a salvação pelo batismo.

A partir do ano 37, ele se estabeleceu por cerca de quatorze anos na Antioquia da Síria e ali fundou a Primeira Igreja Gentia, onde os habitantes falavam grego. Foi neste local que o termo hebraico messias, o ungido, foi traduzido para o grego como cristo e seus seguidores chamados de cristãos pela primeira vez de acordo com a Bíblia. (Atos dos Apóstolos, 11:26).

As citações bíblicas onde aparece o termo Cristo tem sua origem nos textos deuterocanônicos que chegaram até nós escritos em grego, ou seja, quando a tradução do termo hebraico “Mashiach” já havia sido realizada para “Khristós”.

Como na citação bíblica: “Tu és o Cristo, o filho de Deus.” (Mateus, 16:17). Que no idioma original de Jesus era dito: “Atah hu ha Mashiach ben Elohim.”

“Yeshua”

Não renega o título “Mashiach” utilizado pelos discípulos, mas sempre se referiu a si mesmo utilizando a expressão hebraica “ben Adam”, “filho de Adão”, o primeiro homem, que foi traduzida como “Filho do Homem” e significa ser humano, ou seja, ele nunca se relacionou com o caráter sectário que seria dado pelos seus seguidores anos depois da crucificação na criação das igrejas.

O próprio “Khristós”, ungido, em grego não tinha um caráter de exclusividade e estava relacionado com a essência espiritual presente em cada um de nós, com a possibilidade de termos o contato com a divindade sem a necessidade de intermediários ou instituições, concepção que não interessava aos planos de manutenção do poder religioso nas mãos dos sacerdotes.

A concepção original do termo “Mashiach” é pouco mencionada e o termo “Khristós” tornou-se o título de um único individuo.

Atualmente não se utiliza mais a expressão Cristo se referindo a outros que não Jesus e, em meios mais endurecidos, não se admite a possibilidade de terem surgido na Terra outros ungidos em diferentes correntes religiosas.

Muitos admitem a existência de mártires, santos, profetas e sábios. Reis cristãos até hoje são ungidos, recebem óleo sagrado, na coroação, mas ganhou um significado diferente, com uma supremacia que não existia no inicio.

Para os cristãos, Cristo é um título que apenas Jesus recebeu neste mundo mesmo que ele não tenha utilizado o termo. Admitindo que Jesus fosse conhecedor do idioma grego, é pouco provável que entre os seus conterrâneos ele tenha se referido a si mesmo como “Khristós” e não em seu próprio idioma.

Referências históricas apontam que os soldados romanos na região do crescente fértil falavam grego koiné. Reflexo da anterior supremacia helenística que foi superada com a revolta dos Macabeus no período intertestamentário e resultou numa breve independência israelita do ano 167aC até a chegada das legiões de Pompeu em 63aC quando Roma dominou a região.

Existe a possibilidade de Jesus ter se referido a si mesmo utilizando um idioma estrangeiro, mas é pouco provável. Principalmente quando recordamos que entre seus discípulos mais próximos haviam Zelotes, extremistas que dificilmente chamariam aquele que consideravam seu libertador hebreu de “Khristós”.

Em seu próprio idioma Jesus teria se denominando “Yeshua ben Adam” e aclamado pelos seus discípulos como “Yeshua Mashiach”.

Um profeta campesino, que pregava melhores comportamentos e estilos de vida para a realização do Reino de Deus. Diferente das passagens narrativas de “Iesus Khristós” escatológico, pregando a mudança forçada pela proximidade do fim, da separação do joio e do trigo.

O cristianismo como religião

Surge utilizando esta nomenclatura a partir das pregações paulinas entre os gentios. Naquele momento as questões básicas da unificação religiosa eram insipientes, mas começaram a ser debatidas no Primeiro Concilio de Jerusalém entre os anos 49 e 51. A decisão mais importante daquele sínodo foi a aprovação da conversão dos estrangeiros, que permitiu a expansão do cristianismo além das fronteiras israelitas, sobrevivendo ao caos da revolta dos judeus e destruição de Jerusalém no ano 70 pelos romanos.

É desta época a produção dos evangelhos sinóticos mais conhecidos, os chamados canônicos. Nominalmente os livros de Marcos, escrito nos anos 70; Mateus dos anos 80; Lucas, também dos anos 80 e João, o último e mais filosófico deles, produzido por volta dos anos 90.

São denominados trabalhos da segunda geração, ou dos anos 60 até 90, e foram traduzidos do grego para o latim depois da conversão do imperador romano Constantino I ao cristianismo no ano 312, na versão da Bíblia chamada Vulgata, quando o termo “Mashiach” já não era mais usado e o termo “Khristós” estava popularizado, sendo traduzido para o latim como “Christus”. Além do título, também o nome hebraico do profeta de Nazaré, “Yeshua”, que já havia se helenizado como “Iesous” foi latinizado para “Iesus” formando o nome “Iesus Christus”, sincronizado com as divindades solares dos gregos e romanos.

O sincretismo e adaptações

Foram os pilares que sustentaram a nascente religião romana. Como exemplos das mudanças podemos lembrar que quando João mergulhou Jesus nas águas e profetizou que os batismos a partir de então seriam pelo fogo do espírito (Mateus, 3:11), a cerimônia era um ato consciente onde o individuo era ungido e escolhia se tornar responsável por suas obrigações, agindo no caminho do bem coletivo conforme os desígnios de Deus. Porém, a cerimônia instituída quando o Christianismus se tornou a religião oficial do Império Romano consolidou outro entendimento. O batismo cristão representava ritualisticamente que somente através da fé em “Iesus Christus” os indivíduos poderiam receber o novo sopro, ou seja, a salvação de suas almas por um único caminho.

Para complementar a nova ritualística religiosa com a tradicional politica romana do pão e circo, das celebrações populares, o nascimento de “Christus” passa a ser celebrado no dia 25 de dezembro, substituindo a comemoração romana do Natalis Sol Invictus.

Entre modificações e interpretações subjetivas, desde a descoberta de manuscritos da primeira geração de discípulos (anos 30-60) na primeira metade do Século XX, as pesquisas apontam a divisão entre o Jesus Histórico e o Jesus Teológico.

A presença de “Yeshua” nos textos mais primitivos dos evangelhos considerados apócrifos, como o texto de Tomé, contrasta com a figura do “Khristós” das construções narrativas posteriores.

Observando as camadas que foram inseridas nos primeiros três séculos de consolidação cristã nos perguntamos inevitavelmente sobre os caminhos futuros do cristianismo, da fé raciocinada e a essência do que significa ser cristão em comparação com tudo que o profeta camponês, que caminhava no meio do povo vestindo trajes e sandálias simples realmente ensinou.

Porto Alegre, Natal de 2018.

Referências.

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02. BENCHAYA, Salomão Jacob. Espiritismo Cristão (II). Jornal CCEPA Opinião, Porto Alegre, ano 25, número 268, página 3, nov. de 2018. Disponível em < https://goo.gl/wTVjyh >. Acesso em: 23 de dez. de 2018.

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04. BÍBLIA. Português. O Novo testamento: tradução do grego para o português por Haroldo Dutra Dias. 1. ed. Brasília: FEB, 2017.

05. BOBERG, José Lázaro. O Evangelho Q. 1. ed. Capivari-SP: Editora EME, 2018. José Lázaro Boberg

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07. DOWLEY, Tim. Atlas Biblico. Tradução de Luís Aron de Macedo. 1. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2005.

08. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de José Herculano Pires. 81. ed. São Paulo: LAKE, 2015.

09. KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. Tradução de José Herculano Pires. 93. ed. São Paulo: LAKE, 2015.

10. KARDEC, Allan. O que é o Espiritismo: noções elementares do mundo invisível pelas manifestações dos espíritos. Tradução de Wallace Leal Rodrigues. 2. ed. São Paulo: LAKE, 2007.

11. KARDEC, Allan. A Gênese, Os Milagres e as Predições segundo o Espiritismo. Tradução de Carlos de Brito Imbassahy. 1. ed. São Paulo: FEAL, 2018.

12. MIRANDA, Hermínio Corrêa. Cristianismo: A mensagem esquecida. 4. ed. Matão-SP: Casa Editora O Clarim, 2016.

13. MIRANDA, Hermínio Corrêa. O Evangelho Gnóstico de Tomé: O verdadeiro cristianismo como foi ensinado por Jesus. 1. ed. Bragança Paulista – SP: Editora Lachâtre, 1995.

14. PARSONS, John J. Codex Sinaticus: Nomina Sacra and the Name Iesous. Portal Hebrew for Christians. 2004. Disponível em: <https://www.hebrew4christians.com/…/Sinaticus/sinaticus.html>. Acesso em: 20 de dez. de 2018.

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16. PIRES, José Herculano. Revisão do Cristianismo. 5. ed. São Paulo: Editora Paideia, 2014.

17. VALLE, Rabbi Moshe David. O significado do nome Yeshua. Blog do Autor. 2009. Disponível em: < http://yerushalaim1967.blogspot.com/…/o-significado-do-nome… >. Acesso em: 20 dez. 2018.

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